segunda-feira, 8 de novembro de 2010

UM CAMINHANTE ETERNO :



Parte I :

a lua risonha me olhava,
sob o mar que dormente sonhava,
perante minha sina, meu fadado, contado...
estafante destino, tal que fizera-se ilembrado.
caminhando às águas merencórias,
àquela imensidade que tu vias,
nada a mim representava,
mesmo assombrosa como se mostrava...

farto de imunes demoniacas ações que pratiquei,
eu, general de mil impérios que muitas almas desolei,
um mar de ouro pus-me a conquistar, às desgraçadas
e tão infelizes guerras por mim decretadas, iniciadas...

intróito da carinificina, uma visão infernal,
guerras desprovidas de ódio, ávida por uma ganância irreal,
campos de infantes anseios recém acordados,
eis que pairando sob os corpos empalados.

chovem lágrimas negras... ó céu que a tudo isso contrasta!
como os cavaleiros cruzando desertos, à minha gana nefasta,
espadas, machados retrucando maldições,
empasses cabalísticos previstos às contelações...

que tão presenciaram meus fardos impecílios...
de tantos mistérios, busquei auxílios.
a lograr por mais recantos vastos, sequer nem pensei,
quando a minha morte, com malígnos espíritos apostei.

ao fim da liturgia tanto eu rira,
tão quanto cuspia à pira,
dos ritos macabros que o domínio me concederia,
porém, a maldição 'infame', sangue a derramar me impediria.

oh, torres que um dia eu me apossara!
agora declinando às margens da escuridão,
oh, imperial frondosa soberania que eu alcançara!
a mercê dos inimigos soberbos que causaram sua destruição...

fiz minha fuga às batalhas,
pelos insondáveis subsolos...
terras áridas fizeram-se mortalhas,
dos escravos lançados às gralhas,
filhos aos colos,
de damas, pútridas
previsões tidas,
pelos bruxos tolos,
conquistas perdidas.
entregues aos chacais,
oh, não as recuperarei jamais!

* * *



Parte II :

caminhando miserável às margens vividas,
minha carne jovial que não envelhece,
cada instante, fito-me, mais me entristece
as eras caminhadas, observo amadas e suas partidas.

um vislumbre no anil do mar,

apenas quando a luxúria não mais queria-me,
senti! havia alguém que eu ame...

todas minhas injúrias comecei a repensar.

superior tornei-me, à brutalidade em qual forjei-me,
assim como maldoso, impiedoso e tão temporal...
avassalador existir... e todo, a ela dediquei-me.
uma frágil criatura debatendo-se ao seu final.

enlaçam-me aos nevoeiros tristes,
faces de territórios caminhados, agrestes.
pernoitando numa sombria solitude,

busquei por fim, alcançar alguma virtude.

contendas de agruras disputando meu destino,
diabólicas criaturas embaladas ao anoitecer.
olhavam-me espreitas às relvas, o desatino
és este meu sob incostâncias do meu crer.


dogmas sacros tornados pueris,
deuses agora satirizados,

a mesquinhez tornara-me rélis...
desespero-me lembrando dos suicídios fracassados.

corpo tão regenera-se numa adagada,

venenos expurgados das entranhas, vomitados,
o sangue cada vez mais negrejado.
diante a eternidade, uma alma insana condenada.

um terroroso remorço recai como neve,

sob a brancura infindável, não se deteve.
oh, eterno desfrutar do meu ávido mal,
fizeste-me um prisioneiro à dor carnal.

sois nascem, e os finitos dias se põem,
recaindo sob profético dito que impõem
tão lembrados, passados sacerdotes ardís,
de rituais falhos. salvar-me à derrota eu quis...


novos construídos impérios, massacres presenciei,

às valas fétidas, sujismundos confins de fealdade...
camuflado mative-me seguro, dos vermes, meu fado isentei.
- um amaldiçoado vagando às enseadas, à tranquilidade.

* * *




Parte III :

submetidos ascetismos que impôs a penúria,
numa rústica cabana às cordilheiras,
insones inércias... tenebrosas olheiras
agora de meu reflexo fazia parte a furia...

vilipêndio pela minha existência,
desprovida de sequer mísera essência,
ó, calmaria, marisía, minha ouvinte,
ó, criança que decresce acima ao requinte...

desprovida à eternidade,
contemplais com tua encantadora lisura,
bestiais afogamentos, pesadelo comigo perdura

dois milênios de insuportada monstruosidade...

faz-me dormir,
eterno às tuas águas,
o submergir,
ao profundo escuro cair.

* * *

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