segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O CASO DA DAMA DA NOITE


desumana partira em rumo estrelado,
uma sombra alada fulgurando noturna,
à torre exilada,
vagara tal horrenda fantasmagórica aparição
às festividades dum antigo verão.

em remotos tempos ilembrados,

um terrível mistério ocorrera,
Valentina, nobre dama de inúmeros predicados,
certa madrugada, desaparecera...
à floresta dos renegados...

como morta fora dada,
e do lugar a riqueza fenecera,
durante uma penosa década,
agruras abateram-se...
duma velha numa gruta todos esqueceram-se...

eis que neste tal anoitecer,
onde estavam tolos mil a beber,

uma ressoante assustadora forma surgira,
em seu brioso resplandecer,
mórbida, gutural, ela uma maldição dirigira...

podiam fugir, estranhamente hesitaram,
senhoras desmaiaram,
o barão lembrara,
estando oculto, onde ninguém perceber-lo-ia,
trêmulo pálido, ouvir podia, o que a feira assombrara :

- escutem insolentes bastardos ouvintes,
busco o rubro sangue nobre,
não vos macularei,

porém ordeno cá ajoelhado,
aquele que da vida me há livrado.

o burguês, assim do recinto se retirou,
calado nem sequer se apavorou,
envolto estava em bréus de perplexidade...
tão como uma mistica amnésia recaíra à cidade
decorrente a tentativa falha daquela criatura...

uma vetusta sacerdotisa, residia isolada,
lá deixada,
à caverna dos que nunca retornavam,
e um segredo a si guardavam...

ao seguir do anoitecer, fora tal visitada...

à entrada ruidavam disformes galhos,
gritando horrendos a previsão
dos primeiros artifícios falhos,
prontamente sob aquela figura, olhares a velha lançou...
sentada ao chão, tal professou :

- oh, surgida criatura, na vingança impelida,
tu, de certo motivo tens,
além da cruel frivolidade, ou ganância por bens,
( surgiste de onde a treva faz todos reféns),
tornaste à cobrança de tua dívida...


transloucada, corrói-te a existência,
a árdua pendência...
pois profetizo, oh assombrada, diabólica rapariga...
que nesta lua, e somente sua
será dada a graça de ver ao chão, o sangue de teu inimigo.

te vás, e tempo não perca,
à torre retornarás, contra a vontade,
quando dissipar-se o luar maldito, que a cerca...
cobre por mim, oh filha minha,
o preço ao facinora, que ao sufocar-te o ego entretinha.


rochedos ao fundo rangiam,
ventos amargos, lúgubres, sorrateiros vagavam,
e os secos matos pouco movimentavam...
todos, em suma, inanimados uma justiça ansiavam...
as janelas da morada do barão... fechavam, abriam...

em sua luxuosa cama, o sono caçava,
atormentado, melindroso, orava numa fé corrupta,
e o silêncio, com pavor quebrava...
abrupta !
revela-se num estrondo infernal, a vindoura face do mal...

arremetendo-lhe à jugular,
co'um grito apavorante,
eis que a donzela decidiu matar,
horrorizante
deformava-se a cada segundo, seu semblante.

investidas sofrera,

estando cadavérica, sobre a presa
pelos lençois amortalhada...
flagelava o crápula, satisfeita, saciada,
um ultimo momento, e dissera Valentina numa voz sussurrada :

- não pudeste vez jamais,

tocar-me, em meu corpo jubilar-se,
propuseste um matrimônio sangrento, em horror,
porém... sequer uma prostituta o aceitaria...
trancafiaste-me no leito das almas infernais...

tão logo, a fome lhe abraçará,
como a sede, seco o fará !

temoroso irás tu descobrir,
as atrozes bestas esfaimadas à escuridão...
prontas a molestar-lhe, prontas a lhe ferir...

eis que outrora fui mui bela,
e minha pele agora, co'o tempo esfacela...
à garganta, envolveste-me numa branca manta,
que ao teto suspendida...
levara-me asficcia... minha vida foi perdida... jazia eu espavorida...

fecha teu olhos enquanto podes,

recita teus discursos, epopéias, odes...
o abismo a ti espera,
na treva onde o mal prospera,
arrastar-lhe-ei aos confins abomináveis !

dias após o ocorrido,
boatos se espalharam, o barão houvera morrido...
ao lustre de ponta cabeça amarrado,
o infeliz fora estrangulado,
à volta estavam mórbidos castiçais...


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