sexta-feira, 25 de março de 2011

Um jantar...

CENA I :

Despreocupados jantavam ao reluzir das velas, incautos frente um restaurante às sinistras ruas deste lugar por muitos considerado berço de disparates, ou inefáveis “causos acunticidos”, assim permanecia o casal discutindo algo inaudível à distância por mim tomada... Entretanto às vistas, ocupavam espaçosos a rua, como se houvessem o trânsito fechado àquele reduto de histórias, especialmente para aquele eminente momento pseudo-romântico...

CENA II :

E o que concerne a mim, narrador testemunhante vos contando essa trivial cena perfunctória...? Meus perversos pensamentos tresloucados, insanos, cáusticos, borbulhando a cada instante, e concebendo neste plano físico algum reflexo da possível idéia à minha mente formulada, conjurando talvez, algum sentimento mui além dum infame pensamento usurpador de risos desconexos... ou então, se preferirem calafrios tenebrosos, pois o que deveras concerniu a mim é simplesmente a observação de um fato comum ao meu retornar à casa, Um trespassar visto de soslaio arremetendo uma distinta gargalhada... E contar-vos-ei, de certo, uma ou duas possíveis situações fisicamente impossíveis de realizarem-se...

CENA III :

Às sombrias pedras compondo os intricados caminhos, duma esquina de iluminação quebrada e pela penumbra tomada, eis que abrupto ressurgindo, vem um monster car – aqueles carros de rodas gigantes - pelas íngremes fendas demolindo os poucos resquícios históricos legados pela coroa imperial. Trazendo consigo o rugir dos motores, consideravelmente rápidos, embargando gritos histéricos de paúra expressados às suas faces consternadas, e seu mecânico carrasco, por conseguinte prossegue impiedoso numa fração de segundos desconcertante... os pequenos castiçais onde jaziam lânguidas as chamas, assim como a flor retratando sei lá que merda de idéias, e os pratos ainda vazios à espera estagnados numa feia mesa de madeira... ambos todos destruíram-se ao primeiro tocar dos pneus... criiéééeeck, páááaaaaaaa, eram estes os sons produzidos pelo contato físico, embora com palavras pessimamente mal expressados. Estarrecido permanecia o casal mutuamente fitando um ao outro e o carro dobrando outra esquina instantaneamente desaparecendo... sem sequer causar-los um arranhão, ilesos, uma vez que o marido houvera estado entre o alto espaço entre as rodas, e a mulher contemplara a roda direita bem a sua frente...

Ilesos? Não! Não posso permitir isso! - Todavia ao levantar-se o homem tropeça numa pedra bate co’a cabeça na calçada e tem um leve traumatismo... – tinha de dar um final feliz a isto.

CENA IV :

Deslocava-se milimétricamente a mesa sob as anuências da pedra, uma pequena fenda quiçá malevolente buscando inconvenientemente causar certo acidente, ou empecilho àquela suposta noite de romantismo barato... e esta última, obscura velara muitos dos inconstantes olhares duvidosos do marido. Inebriante tornara-se o silencio apavorante numa noite de lua cheia garfando indiscretas olhadelas partidas da conjugue, evidentemente nervosa, sujeita estando, às desconfianças daquele pálido cara que o prato torturava rangendo o garfo de prata, além, é claro, dos ouvidos alheios, subconscientemente implorando por uma breve trégua negada. Porém, brisas, sutis ares malignos pairavam sobre o ambiente, incognoscíveis, inexplicáveis, ditavam o núncio dum trauma direto e abrupto. Até mesmo as inanimadas pedras da cidade velha perceberam-nas espreitas surgirem donde o imprevisto, é rotineiro. Perduro hoje legando-vos tal fato, improvado e que Deus queira ter apenas sido delírio causado por excessivas madrugadas insones e exacerbos alcoólicos... entretanto cabe a mim testemunhar, como dois seres, aparentemente comuns, submetidos foram, ao mais insano e horrendo caso. Estrelas, oh estrelas vaidosas, vistosas, dançantes inertes ao pomposo negro fulgor noturno, sois apenas brilhos desfigurados perante àquelas nuvens agoirentas surgidas abaixo os infelizes prostrados, aguardando um jantar! Garças desapareceram dando espaço aos pássaros negros, num coro mórbido com os acidentados gatos marginais, fantasmas domésticos, viajantes vadios que nos telhados perscrutavam o inferno em forma apresentar-se. Apenas os dois pobres coitados ali perduravam, não notando a vil sombra comprimentar-lhes as almas, no fundo dos mais gélidos e inatos lodaçais de seus espíritos. Sentiram! Assim chegado, pudera ver ela, sua mulher, em catatonia, apontando o dedo em sua direção, eis descortinado o demônio mais nefasto e ediondo agarrando-lhe o pescoço! Tremores logo anunciavam convulsões, as frias mãos prosseguiam num espetáculo estranho. O homem desmaiara. Possuída permanecia a singela faca, pelo punho cadavérico, mirando oxidada à jugular dela. Chocaram-se os santos, anjos desviaram os olhares, numa assumida negligência, segundos intermediaram punhaladas vorazes ao peito, assim dadas após um parvo toque ao corpo estagnado ao chão. Rubrosos olhos uma diabólica essência resplandeciam, àquele enrubescido semblante grotesco, agora reinava o caos e a miséria humana gritando um tachos provendo rancores, insânias, adultérios... vicejaram chamas, naquele ser infernal, desde anos alimentadas... Caída, ferida, ensangüentada, jazia langue aquela rapariga, contorcendo-se mecanicamente em gritos inumanos, no inóspito confim por outros humanos deixado. Gradualmente em poucos segundos, rangeram os seus pés ante seu assassino, infeliz marionete do Diabo. Desvelara-se um umbral medonho ao lugar da boca grunhindo aberrações incriadas na Terra, bestiais eram os traços largamente deformados cuspindo atrocidades encarnadas... definidos, seus negrejados olhos ofuscavam quaisquer manifestos ali empregados... eram dois amantes macabros, fugazes discursos estridentes ressoando... triviais minutos decorreram-se num sórdido espetáculo raramente visto nestas instâncias... lascivos beijos seguiram-se ao terminar de meu relato, não mais havendo sequer consideração sobre o ocorrido. Espargira-se ao esmo, toda a penumbra horripilante, retornando à calmaria das onze, quando ao deparar-me estive novamente, ambos deitados recostavam-se à mesa tombada, adormecidos, junto à faca, suja de sangue...




Talvez nem ao menos eu saiba direito o que levou-me a escrever tudo isso, as vezes tosco e sarcástico, e em certos outros momentos completamente negro e sombrio, ao que deu-me o desejo inexplicável de fazer algo assim, de conjurar à escrita essas ideias todas mescladas num imprevisível rumo tomado... Espero que gostem... rsrsrsrs

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