terça-feira, 3 de abril de 2012

O CHEIRO DA MADEIRA





áres de orvalho, em carvalho, odor pressinto,
pinheiro, seu cheiro, certeiro, sucinto...
lenha partida, à penha perdida,
só, e ensimesmado,
sob alturas de imprevisível passado...

montes, bosques, de almas preteridas,
vagando sem ver, decorridos séculos,
ansiando rever, enterradas fortunas,
estando fronte a este, despercebidas...
presença além do cheiro, sentida, inoportuna,

solidão de um alpe,
sensação d' um exilado,
dor dum escalpe,
duma guerra retornado.

madeira estrida,
seca fragrância,
serragem palpita,
no ar de inconstância.

o musgo respira,
de lado; restante;
tornado, errante;
num verde esfaimado,

toras se batem,
tipos de tocos,
troncos ocos...
oleoso trabalho, ocioso entalho,

semblante teu, à mão minha, findado será,
quiçá, se este não se partir,
ou caso cair,
à labareda à lareira, qual se acendera...

vintena de ciclos, às cinzas volveram,
invernos vivemos, veremos o fim...
aveludados vastos ventos vozeiam vingança,
verás a vulga vileza, julgada em tua andança;
o trepidar do temporal; a relva à trovoada tombando,

eis um trovador condenado,
em exuberante purgatório,
paraíso predatório,
no qual me fito desolado...

espreita insanidade,
estreita imensidade,
desfeita verdade,
suspeita odiosa eternidade...

vindouros segredos pinheiros escondem,
evocados, fantasmas respondem,
cheira mais forte, a madeira a cada montante,
por mim, indaga o espírito, inquietante...
- quando nascerá um novo horizonte?




Esse poema diz muito, e poucos realmente compreenderão...

Tela de William Turner (1775 - 1851)...




Um comentário:

  1. Voce sempre me mociona com seus poemas.Procuro inumeras palavras para descrever o quão talento voce tem,e sinceramente,não me vejo com a capacidade de tamanha coisa.
    Estou com saudades!

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