terça-feira, 3 de abril de 2012

VENUSIA




era ela a mais delicada pura flor,
oh, quão fora, de feminil dislumbre!
transcendida nos mais belos jardins do paraíso,
onde inexistia a mensão de qualquer infima dor...

terno silêncio d' alma, doce vento,
à grama seca, doirado alento,
fitá-la em toda sua radiante venusia,
até mesmo, os eternos dormentes, com isso levantar, podia ela,

sinuosas curvas, intensas cores,
não lhe houvera, sequer algum, não caido de amores,
terna, em cada suave dita palavra,
- semeadas preces - homem algum neste plano lavra.

bailando imaculada, em plácidos rodopios,
de lisura, se lhe vissem um olhar, surgiam arrepios,
tão graciosa numa física perfeição,
licensa, concediam os alheios frutos, à suas crias,

maravilhosa, mística voz de perecíveis manifestadas criaturas,
vislumbrada de sua montanhesca altura ainda em planície,
não lhe há sequer inimigos pr' a que a possam admirar,
por reis e heróis cortejada, suas almas dispondo até a entregar...

eis que... pois, se calaram todos, tão presentes,
e supôs a flor, não queriam atrapalhar-lhe a cantoria...
divina nota alguma, todavia, não havendo,
senão gulturais e aterradoras lamurias de fatal catatonia...

até a mais preciosa doce criatura, pode, hediondez cometer;
até a mais pura lindeza horror pode por detrás esconder...
colapso d' um definhado ântro de imortalidade suicida,
o cômico retrado d' uma virginal divindade ensanguentada,

derrocaram-se muralhas, de floridas dedicadas coroas,
- que melodia, tu, digníssima donzela, agora entoas?
deslindaram-se fulminantes relampagos furiosos,
cremando vivas infindáveis vastidões de inocentes,

doentia inebriada vista de esmagador sofrimento,
trespassam os mares; fronteiras, terror difundindo,
abismos vicejam, frente uma santa apavorada,
a lava carboniza, qualquer remanescente firmamento...

caótica terrífica tempestade,
cujo frio se faz vingativo,
eis desértico, tal cinzento mortuário
de faces, esfolando-se vivas...

absoluta morbidez de cremados vales,
ceifadores mensageiros da dissolução maligna,
risonhos feitores à escravidão eterna,
a agrilhoar-lhe sua insignificante figura...

arenoso áustero solo, lhe salpica as feridas,
grãos de desfiladeiro deserdam honrarias quaisquer,
parcela duma parte de nada, esquecida em extensões recluídas,
eis figurada e tão esdrúxula miserável criatura, em seu funesto fado...

o despencar do alto do pico de uma ponta de agulha,
decair-se sob as rememoradas cantigas de infância,
o descarnar em carne ainda, à vinda, do fim...
assim... como falram seus sectores contentes...

inexiste perfeição eminente,
sequer esta, está um dia a ser,
em contentamento tornaste, recordando memórias não vossas,
oh leitor! o desfechar da trágédia... ressurgir dum novo jardim...!





Infelizmente a falta de tempo me impedira de publicar este e alguns poemas mais antes. Com certeza um poema que eu tive prazer em ter escrito, - eu e meu sadismo de novo - poder retratar quão verdade é isso aí em cima, quão algumas pessoas estúpidas se enganam sobre tudo ser aparentemente belo e "imaculado", quanto à falsa ternura, belos rostos que nada dizem, sorrisos hipócritas, delicadeza mortal, pureza vendida... são preciosos por que? consegue alguém se valer só pela imagem? e as atitudes?!
A beleza apodrece, e se dissipa, as ações e as mágoas, ecoam no tempo, e se expandem no espaço...

O ideal de perfeição do ser humano só é válido porque é uma utopia, que jamais existiria, se fosse o caso dele existir, seria uma virulência pestilenta.
É uma pena que a maior parte das pessoas não pensam assim, talvez se aceitassem seus defeitos, e aprendessem a admitir que nunca houve alguém perfeito... o mundo poderia ser melhor.



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