quinta-feira, 28 de junho de 2012

Rainha do Tempo




sob tal imponente nefasto palácio,
à costa dum oriental deserto de rubis lapidadas,
e de incongruências mil, rogadas;
às parasitas de escravos, seguindo à rainha,
em montarias cujas, sujas langues engatinham,
pois, vós, mensurem, tal lumioso portal,
qual, domina ela, e nenhum mais imortal;

abismo de todos os tempos, e estações,
de colheitas férteis, e auspiciosos impérios,
inimagináveis abismais desastres, divinais trovões,
profanos reis, de dantescos bustos,
ostentando terríveis gafanhotescas presas,
pairando ali, abaixo o céu, mil corvos robustos,
o trincar de juradas espadas forjadas;

prontas ao sacrifício,
à lascívia das águas,
de um lago em miragem,
bebendo a carnagem,
iluminada e dançante,
no poder de um instante,
às silhuetas cujas, curvadas,
dobradas temidas,
tímidas assombrosas,
escoltam-se ao marchar,
de colossais brutas aberrações,
perpetrando a grandeza
do real sinfônico absurdo...

o tumbar hórrido da eternidade,
em frígido oiro de gongos supra terrenos,
troando grotescas vastas procissões,
cabisbaixas, de ingênuos murmúrios.

em distorcidas cores, mil raios,
celestiais raizes vicejam vertendo,
verossímil vistosa venusia volvendo
vinte vingados verões, consigo trazendo;

gigantes
lacaios,
empíricos
épicos
marchantes
ensaios
de se como era antes,
do sol se apagar,
o negrume tragar,
por meros instantes,
estágio
do fim,
o eterno
infindável
presságio,
abismal
vacuidade,
o confim
de holográficos
milênios
passados...
segundos
seguindo
estagnados
em oriundos
selados
séculos
trancados...

à chave!
à clava!
o clamor
do ardor
em horror
pela dor,
do desconhecido,
um incognoscível
a mais,
detrás
os tais
tantos
cantos
cantados distantes,
diversos supostos,
opostos visados,
vastidões semelhantes,
chocantes infernos,
inversos vislumbres
vistas vagas
viagens, vertigens
de imagens,
mensuradas inefáveis,
afáveis delírios,
rios da dissolução
de expansão incriada...

eis a horda ainda em marcha,
ínfimos gigantes dum pensamento
absortos, de almas sorvidas,
no transfigurar da dissolução...

eternidade, espaço, tempo...
exemplo de traço, à imensidade,
mais uma, estrada paralela,
ligeira, a existir sob a infinidade!

e ainda lá acima um monte, vejo a donzela,
de arroxeada pele, e adornada face nenhuma,
a erguer vitoriosa atlética, o cinturão dourado,
encarnada e temporal raínha, apenas mais uma;

neural ínfima, monárquica humana parcela,
de invocar capaz, até mesmo o não vivido,
dum universo onde jamais se houvera ouvido,
senão tão aterradora paisagem, tão bela;

a contemplar noturnas gamas de cosmos,
celulares membros duma unidade expansiva,
intensiva; n' outra mais vasta estrutura,
colossal se espargindo infindável, explosiva;

sem começo ou fim... a ser apenas sendo,
o além do irreal ou paupável, rompendo,
a substância do existir em constante mistura,
e uma gota ao mar, é o conceito, que tudo isto apura...

escutar ainda posso, paquidérmicas infantarias,
pressinto agourarem os selvagens, com suas feitiçarias,
o trespassar à procissão, imensa, grotesca,
selar-se o portal, e ir-se junto aquela figura arabesca.



Complexo, e forte, as vezes torna até mesmo ao incompreensível na primeira leitura... foi justamente o que eu quis desse poema, - não quero que leiam isso como se fosse uma bula de remédio, se for pra ler, leiam com calma e mente limpa! - comecei ele a um mês atrás, e em uns quatro ou cinco dias que trabalhei nele, terminei. acho que ficou praticamente da maneira que eu realmente quis expressar, tanto os efeitos visuais como também a colocação das estrofes e ordem dos versos, ritmo e ambientação.
Comecei ele quando ouvia o Bolero de Ravel, simplesmente surreal, e terminei ouvindo Scar Symmetry, que também é um som matador.
Talvez as imagens da postagem só que não tenham sido exatamente o que eu queria, mas mesmo tendo procurado muito, não consegui nada que chegasse perto do que me veio à cabeça. Nem preciso fazer muitas considerações sobre o tema, o poema já diz tudo.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Lycantropya


redoma de doméstico concreto,
serenidade cinzenta, e perturbada,
estranho ruído, voz rosnada,
algo dizendo, não inteligindo nada...
num aposento de hospício, ao teto;
deparara-me co' uma besta acuada,
humana, diabólica, incerto
àquela aparição alí mui perto,
recém detida, e internada...

maníaco instintivo, delicado olhar,
por sangue ansiando,
sua boca banhar,
lupina fugaz destreza,
tenebrosa frieza
por detrás arrepiada pelagem,
a maldição, a se liberar,
enraivescida espumante mutação,
pronta ao abate, com o ataque dum cão;

fugitivo à porta,
destroçara enfermeiros,
corta
com as garras
grandes grades
entorta
as barras
deixando metades,
ainda inteiras
tomando dianteiras
grunhindo
furtivo,
seguindo
intuitivo
até o não mais ver...

o anoitecer
cheira sinistro,
ministro
das aberrações,
em que não se ousam crer,
e em quais jamais anseiam sonhar,
o alvorar das consternações,
e aparições malditas lhe habitam,
respirando
o medo
no enredo
em que gritam...

...tropeçando
ao rezar,
debandados,
desmaiados,
tentando
cada um
por si fugir,
azarados
deparados
à tez dum
monstro olhando,
retalhando...
de rugir
sem piedade
ou receio,
rancor,
ou anseio,
à dor
da insanidade,
lupina humana aspereza,
esquizofrenia, ou verdade...?

polícia chamada, que urgentemente,
investida forçada, armas vacilantes,
três metros, com uma perna em meio um dente
horrendos prantos sob os tiros incessantes,
de pungi-lo incapazes, vorazes esquivas
esquerdas, estralam-lhe os ossos,
vislumbram os demais, temerosos;
um morto colega, não mais há tentativas...
de dalí sair, sequer se for, por acidente.

e o nimbo da aurora sangrenta oculta a verdade,
santificada seja a besta em reza, ajoelhada,
vitrines; postes, destruira em uma patada,
escondida contemplando a lua, sem presença,
àquela noite, em que a praga fez-se a crença,
abominável, a envolver toda a cidade,
madrugada aterradora, sem heróis; balas de prata,
de frieza desprovido, tampouco um sociopata...
e que do saber de todos, desaparecera abrupto.



Estejam certos de que adorei ter feito esse poema, sem permitir com que realmente se tenha a certeza de estar falando simplesmente do distúrbio da Licantropia - escrevi Lycantropya porque me deu na telha, foda-se, achei que ficaria mais interessante - ou do mito em si, e ao mesmo tempo ter tratado do medo de forma poética como na quarta e quinta estrofe por exemplo, bem... ele é só a primeira parte, tenho mais dois em mente sobre o assunto, que virão a se relacionar com esse... e que se desvelem as presas brutais do oculto!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pelo menos eu sei que não foi em vão







sirenes distantes, merencórios ares,
os carros, estão afoitos,
e nós aqui, sós,
querendo morrer,
com o nome da noite num papel...

... desconhecendo esta, requisitada,
incertos, às mãos dos céus, famigerada,
cigarros, bebidas, ventos gelados,
maturas lágrimas,
de quem ainda nada viveu!

sejamos fortes, até o findar do espetáculo!
as marés, ostentam enfeitiçante calmaria,
aperto ao peito, afago à agonia,
não mais vê-lo, depois de ter tanto esperado!...

em esquinas estorquem arcanjos,
com espadas de labaredas invencíveis,
à retidão, da temível senda intransponível,
costumava esconder meus demônios debaixo da cama;

...e acreditado, poder ser um dia melhor,
desconhecendo o horizonte além do azul,
e a temer o decolar das andorinhas pro sul...
ensinaram-me a odiar quem soubesse o segredo;

o nome da noite, me horrorizava,
a magia das estrelas,
a távola das constelações,
o negrume! o negrume!
oculto, a não brilhar!

os abominava;
os desconhecia!
lhes segregava,
voar eu queria!
sentir maresia,
dizer elegias,
ser bom sem temer,
ser mal pra descrer,
ou mau se eu quiser,
de vós distante,
com voz errante,
onde for pisar!

oh, pai!
não é o céu um celeste tesouro!
oh, pai!
por que não encontro mais sentido...?
oh, pai!
qual o motivo desse sangue ao chão?
oh, pai!
por que ainda tanta abominação?!
oh, pai!
eu temo, a terrível eternidade...
...oh, pai!
nada sinto, proferindo teu nome!

venta
à volta,
tenta...
solta;
o terço
ao vão
do chão
do pier,
no berço
do céu,
se perdeu,
com o que tiver...

caminhando...
em praianas noturnas singelezas,
onde abraçam-se anjos, demonios,
de aterrorizados semblantes,
como infantes, diante dum monstro;

eles não queriam ouvir,
o nome da noite,
a magia das estrelas,
a távola das constelações,
o oculto, a não brilhar!


terça-feira, 19 de junho de 2012

Nove tiros



sonhei tomar nove infames tiros,
quando tranquilo, numa rua caminhava,
eu vi, era um bando que chegava,
num carango bege, todo arranhado;

vinham do nada, bastardos malfeitores,
cantando pneu, gritavam carecas,
de repente investidos, explosões secas,
o queimar à carne, uma queda ao chão...

escorrido, meu sangue ao cimento sujo da calçada,
cantigava a morte, sobre mim, pra eu dormir,
o leito de ninguém, a parir-me no inferno,
mirando aquela escória se seguir...

levantado, retirando as balas,
sem sequer as pernas, ter trementes,
gritos, pragas, temores ausentes,
as levei no bolso, como tampas de garrafa...

recém chegado, em casa, as contemplava desdenhoso,
chumbo opaco, pouco brilhoso,
num canto... num balde...
lançadas como sementes, a mais outras mil.



Vingança




mirar repentino, à frente estão!
sozinho estando,
a parede é cruel!
pior que o céu
afora, tempestade esbravejando...

possessivos pensamentos,
tomam-te como toma um crente
uma cruz,
espírito reduz,
num incontentado sedento inclemente.

não se trata mais, de vencer ou superar,
tampouco o universo por sí punir, deixar,
você quer sangue, prontamente,
e é o deles, dessa gente!
por dentre os punhos, a escorrer;

clamor raivoso, animalesco,
se passam os dias, cada vez mais dantesco,
abismal, agravado,
do inferno, o atestado...
como se agora importasse...

persegues em mente,
alodaçado em rancor,
que a bomba aumente,
custando quão for...
puxando o pino à granada pulsante;

o tempo é tortura,
esperar, uma agrura,
não há moral que entenda,
ou condenar consiga,
apenas aceite, algo maior que tudo instiga!

pisar em cabeças,
tocar o terror,
desimar-lhes as peças,
do jogo, rir-lhes o horror,
o ensejo, tua elevação espiritual...

como prêmio a obter,
mérito individual,
volúpia sem se ater,
a deter, coisa tão primal,
barbária cega, descontrolada ainda à mesa;

infectado no amargar dum consciente,
arraigado em algo mais profundo,
se exalta o espírito, de repente,
destruir cada rato imundo...
a esperar, em penumbras chuvosas, vespertinas.


domingo, 17 de junho de 2012

Detrás a lei





você pode avançar em mim agora?
seus faróis se apagaram, sozinhos estamos,
desarmados, corpo a corpo, frente a frente,
não há como gritar na sua redoma de horror,
desacato, afrontamento escarrado,
poder abusivo, fora o seu descarado...

que pode você fazer agora, senão rezar?
o presságio de que algo ruim está por vir,
onde há lei alguma, armada, a intervir?
pelo correto nem tu vieste a acatar,
caído à soberania da ordem,
qual sequer consegues compreender!

parecia tão divertido não é?
ser poderoso, mirar, mandar,
se crer maldoso, e poder bater...
desarmado emboscado, apelando à fé,
isso é sangue, por sua boca a escorrer?
isso é uma criança a querer gritar?

mentira! mentira! é tudo uma mentira!
a vossa lei... é a de quem mira e atira!
lembra daqueles olhos, dentro às janelas?
eles estão furiosos, não se esqueceram,
vislumbra o enxame, livre às celas,
fita teus comparsas, se lhes socorreram!?...



Eu creio em Dragões!



de cerrados punhos, a vociferar,
contra quem tente, escarnear,
coração ardente, veemente a dispor,
de sua alma, em eterno juramento...

sincera sociedade,
o mundo a descobrir,
furiosos semblantes a morrer,
por quem se tem a amar;

liberdade inabalável,
imponência incontestável,
mordazes garras, discurso ardente,
não importa o que diga, toda a gente;

ainda estarei contigo,
amigo,
onde for,
cantarei,
lutarei,
na alegria, e na dor,
creditarei,
incansável,
invencível
serei,
cavaleiro, mago,
quando me deito,
quando vago,
ou em meu leito
a luz apago...

guardião incomparável,
atencioso, inseparável,
de unidos empíricos espíritos,
cristais e espadas, o saber, nossos ritos,

mesmo que reclusos, rebelados,
presente crença, de joelhos desdobrados,
cotidianos cavaleiros, numa noturna elegia,
defrontados sinceros, contra tanta hipocrisia...

n' outros vislumbres crendo,
que não uma humana utopia,
dum paraíso florescendo,
em que eternamente se vadia...

sem suspiros, senão merecidos,
o emergir da elevação infindável,
ser o poder de poder, sem víl vaidade,
a ação após o discurso! por uma verdade...



quinta-feira, 14 de junho de 2012

HERÓI



decrépita vila,
um demarcado
distrito,
em demasia se fala
no estado;
deste lar do conflito.

à negligência,
miserável,
indulgência
é inviável,
terra do assassínio,
suplício dos fracos, dos fortes fascínio.

e se contempla o nobre, o miserável,
de restos fazendo, às fazendas, um bem rentável,
fitam-se leprosos, pois, do garimpo, os forasteiros,
de velhas armas, a enfretar intrusos bandoleiros.

e em veredas de moradas, de madeiras carcomidas,
se arremedam as moças, aprumadas, pois de vestes tão sofridas,
de ingênuo flerte, e reza pura...
devotas rudes flores, que exalam vã doçura;

gracejam ao comércio, ilustres figuras,
desinibidas, desfilando envoltas, pedidos ouvindo,
duns pobres diabos, vivendo em agruras,
fitares; de alma famintos, das lavadeiras seguindo...

odiados são, os não devotos dum tal padre Cleonato,
orientais, prostitutas, ladrões e o armeiro,
infeliz recluso, aliás, dum dito dizer mui traiçoeiro,
que co' o Diabo, como contam, tem contrato;

sempre de preto, e cabelo escorrido,
beirando-lhe os ombros, semblante sofrido,
pistolas portando, de barba longa escura,
com outrem, demasiada conversa, jamais perdura;

estranheza causando, aos puritanos espanto,
ruas trespassa... mães, filhos cujos, de perto recoam,
ruidosos coturnos, em pétreos caminhos ressoam
o grito, do couro àquele brioso andante sem pranto;

saqueadores, assíduos retornavam,
invadindo armazéns, valores tornavam
à estrada, ao deserto, sem escrúpulo, ditos sem fé,
intentavam ainda ingênuos, alguns, atirar-lhes à pé,

homicídios às vistas, cotidiana paisagem,
pululavam crianças, ante toda esta imagem,
degolados delegados de levados legados,
lavados em sangue, eram os portões do quartel;

tiros se explodem,
pistoleiros revolvem,
dias após, tudo podendo
se sendo
forem; como um desses...
quais riem de pobres preces;

legionários abutres,
desértica aspereza consigo traziam,
mercenários funestos,
tornados à face do armado armeiro
armador de armadilhas e ardís,
cansado de tantos, prantos hostís;

tragando um cigarro, um escarro ao chão,
desprezo ao chefe, vindouro esquadrão,
retumbando infernais compassos, em cavalgada,
trespassando morros, de explosivos, à emboscada;

- bastardos malditos! - seguidos disparos,
sobre sí, decaem, moribundos dispersos,
incessante chacina, tamborila o gatilho nervoso,
provindo do armeiro, enrubescido calmo impetuoso...

- insetos... - os mata, sem dó, de uma vez,
sinfonia dum escuro maldito pó, mata mais dez,
gritos, blasfêmias, estouros, alardes...
contempla a morte, dispondo dissonantes acordes;

investidas certeiras, lacaios, são poucos
agora, embora vigore a voz em tons roucos,
dum lobo velho, saguinário ferido,
tornado a seu alvo, concerto enfurecido;

de madeira o celeiro, caixas de pólvora,
sombrio recanto, ruída uma espora,
cercado, e sagrando, o armeiro ordena,
sozinhas fecham-se as portas, quando este acena;

intentam luz ver, derrubá-la, impossível,
as pragas finais, no abafado escuro...
um rubro ponto de luz, cheiro de fumo,
espavoridos imploram à virgem... segundos finais...

negrume e combustão, fumaça, oração...
recém saído, o povo reúne-se a contemplar,
aquele que era santo, e dispôs a vida sacrificar,
chegado é o prefeito, em plena proclamação;

e viram-se então, as moças, todas aprumadas,
mimosos lenços a enxugar ternas grosseiras faces,
senhores do gado, de coroas mui bem ajeitadas,
alaranjados cravos tão bem dispostos ardentes...

como o coração, destes, recém, chegados garimpeiros,
a saudar tão lúgubre sacrário, do "herói",
sumidos fregueses, arrependidos caloteiros,
contadas antigas historias, de amizade jamais vista...

eis que às brumas, dos destroços se desvela,
uma silhueta sinistra, e das chamas remanescente,
caminhava o armeiro, sem sequer um acidente,
não podendo ser dele provinda, tal estranha cautela;

e a profanar suas honrarias crédulas hipócritas,
bradara ser, certamente um vadio satânico,
ao prefeito escarrando-lhe em tão flácida insuportável cara,
caminhando, e difamando várias virgens com as quais já se deitara...





Não muito a dizer sobre esse poema, simplesmente eu consegui dizer tudo aquilo que eu quis nele, isso por si só, é o ápice do que pode querer um escritor ou um poeta... :)



Furto espiritual



o que se ja fora um dia,
visto em outrem, de mesmos passos,
em praças pairando,
esvoaçam os pombos, quando põe-se a cruzar-lhes...

a dizer-nos, se queremos comprar-lhe
alguns patuás de vivas cores,
ditos amuletos, também atraem amores,
frente a qual, me prova que não preciso...

e nos jurando veemente,
ser mestre mago, xamã, vidente,
propondo-nos provar de seus dons,
por um preço julgado, por este, ser dos bons;

ri-lhe de soslaio, tornado cobaia descrente,
cedendo espaço a quem diz... - lerei sua mente!
bizarro, exótico credo, de estranhas cantigas,
mais que outroras meus, de consagrações antigas,

repentina mancha surgida,
à mão qual não mais sinto,
pele, por sangue cingida
abrupto situar-se num mental recinto...

é você e a figura minha cá, neste leito
à escuridade dos medos mais tenebrosos,
eis vossas entidades em infame intento,
de roubar-me, uma esfera azul de meu peito...

dói-me sem sangrar,
sentindo sem nada acontecer,
se tu me a levar,
não virei mais a renascer;

pois creste nisso conseguir,
fácilmente, sem lutar,
fazendo-me no torpor deparado,
sabias quem devias furtar,

desconhecendo quão poderia eu fazer,
caso desse errado, desta vez,
vislumbra detrás tua nuca, a gelidez,
às trevas do espaço, a impedir...

contempla!... contempla!...
vicioso viscoso esverdeado espectro,
perturbador disforme, que tu és!
a agarrar-me o pescoço, as mãos, os pés...

fita feroz sinistra sombra
de avermelhados olhos lhe investindo,
mordendo-lhe espiritualmente, fogo cuspindo,
serpenteando tão imponente calda escamada;

garras agora, conjuram o portal dum penhasco,
sem fim, donde o prazer são o rancor, e o asco,
seguram-te impetuosas, perante a face draconiana,
rubras vistas, respiração secular, voz de tormenta...

vejo à cadeira sentado, uma gota espargida,
um pedaço de arame, patuá mal feito, pequena ferida,
cruzados olhares, mentira contada,
- ele só pensa em tí, a senhora, é muito amada!...

minha esposa, por conseguinte, mui surpresa,
suspirara frente a mim, seu semblante brilhava...
sem menos dois àqueles quais carregava,
se seguira distante, o vetusto, n' outra distinta mesa.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Agora...



.


se foi tudo, à noite calma,
eu vejo o mar,
um rosto a contemplar...

dentre nuvens, apenas nos cuidando...
e sua luz nas águas
apenas era a lua revelando;

as crianças perdidas, que tivemos,
diante um juramento,
desconhecendo a eternidade...

eu desejo você, e vou até o fim,
não importa o quanto custe,
impossível, pensar em ti senão assim,
não há mais nada, que me assuste...

quando em você eu penso,
um anjo tão belo na madrugada,
e de semblante, tão intenso...
do passado, agora, não resta nada;

eu amo você, preciso da sua presença,
toca-me a mão, venta num centeio,
sentimento não há, e que isso vença,
o horizonte vislumbro, és tu meu anseio;

parece um sonho, agora a acontecer,
podemos alcançar a estrelas e os planetas,
eu não quero deixar você jamais,
sequer posso mensurar sua distância...

... nossos momentos foram efêmeros,
e mui ansiei que fossem séculos,
por você eu deixei toda a glória,
de um vaidoso imperador viciado...

parte de mim, vai contigo,
esperando-te, um breve reencontro,
te vais, como algo em mim já tão antigo
a pairar... e eu aqui estarei, perante o mar...




quarta-feira, 6 de junho de 2012

O encapuzado da máscara de ossos







sangue derramado,
mais um corpo deixado,
dentro às relvas, dos capinzais;

perturbadora cena,
um infeliz que condena,
novamente tal macabro mito, às proximidades locais.

rememora
esta noite,
a face horrenda,
do inferno, a fenda,
o semblante
perante
o agora
do açoite,
cruel,
brutal,
o mel
do mal,
como a morte,
amarga, sangrenta,
profundo corte,
qual lhe sustenta...

... um credo maldito, à eternidade profunda,
noturno intenso disturbio nefasto,
se parte o crânio, à faca imunda,
concebido absurdo, ante este pasto;

testemunha à vilania do retrato oculto,
eloquente olhar incontrolável,
detrás tão sinistro e negro vulto,
encoberta encapuzada besta, imperscrutável;

portando
macabra
máscara
de ossos
humanos
composta,
colando,
fragmentos
de faces
amadas...

em prantos insanos, temendo a morte,
vagando vencido, intentando ser forte,
levando consigo
à sua imortalidade,
parte do amigo,
em devotada piedade.





terça-feira, 5 de junho de 2012

MAÇANETA



eis que numa casa,
pois, mui distada
e com a porta, tão bem trancada...

contemplo a maçaneta
se mover,
sem ninguém por esperar,
ou alguém cá, conhecer!
violento
é o movimento
me aterrando,
madrugada
se agoira
e agora
alí, afora,
há algo se irritando...

escuto ruidar o capim seco,
explode a pancada,
janela adentro, o eco,
madeira estremece,
redoma assombrada!
será o momento
do fim, ar viciado,
aturdidos
sentidos,
fito um metal prateado...

... rompendo
a barreira!
marcha
cardíaca,
insana,
acelerada,
inebriante,
demoníaca,
é a voz
gritada,
o suspiro
terroroso,
- inumano,
o pavoroso
rosto
suposto
à enervada agonia;

trementes mãos
de uma faca provida,
aguardam o instante,
de aqui ser rompida...

se estoura a barreira,
expande-se o grito, esvoaça a cadeira,
encima desta aberração,
a esfaqueio, a desarmo, lhe rogo a pior maldição;

sem saber exatos por ques?
ligo o motor, antecipados arranques,
correndo distante, reflito apenas, horrorizado,
estivera eu certo, do que houvera do outro lado!