quinta-feira, 14 de junho de 2012

Furto espiritual



o que se ja fora um dia,
visto em outrem, de mesmos passos,
em praças pairando,
esvoaçam os pombos, quando põe-se a cruzar-lhes...

a dizer-nos, se queremos comprar-lhe
alguns patuás de vivas cores,
ditos amuletos, também atraem amores,
frente a qual, me prova que não preciso...

e nos jurando veemente,
ser mestre mago, xamã, vidente,
propondo-nos provar de seus dons,
por um preço julgado, por este, ser dos bons;

ri-lhe de soslaio, tornado cobaia descrente,
cedendo espaço a quem diz... - lerei sua mente!
bizarro, exótico credo, de estranhas cantigas,
mais que outroras meus, de consagrações antigas,

repentina mancha surgida,
à mão qual não mais sinto,
pele, por sangue cingida
abrupto situar-se num mental recinto...

é você e a figura minha cá, neste leito
à escuridade dos medos mais tenebrosos,
eis vossas entidades em infame intento,
de roubar-me, uma esfera azul de meu peito...

dói-me sem sangrar,
sentindo sem nada acontecer,
se tu me a levar,
não virei mais a renascer;

pois creste nisso conseguir,
fácilmente, sem lutar,
fazendo-me no torpor deparado,
sabias quem devias furtar,

desconhecendo quão poderia eu fazer,
caso desse errado, desta vez,
vislumbra detrás tua nuca, a gelidez,
às trevas do espaço, a impedir...

contempla!... contempla!...
vicioso viscoso esverdeado espectro,
perturbador disforme, que tu és!
a agarrar-me o pescoço, as mãos, os pés...

fita feroz sinistra sombra
de avermelhados olhos lhe investindo,
mordendo-lhe espiritualmente, fogo cuspindo,
serpenteando tão imponente calda escamada;

garras agora, conjuram o portal dum penhasco,
sem fim, donde o prazer são o rancor, e o asco,
seguram-te impetuosas, perante a face draconiana,
rubras vistas, respiração secular, voz de tormenta...

vejo à cadeira sentado, uma gota espargida,
um pedaço de arame, patuá mal feito, pequena ferida,
cruzados olhares, mentira contada,
- ele só pensa em tí, a senhora, é muito amada!...

minha esposa, por conseguinte, mui surpresa,
suspirara frente a mim, seu semblante brilhava...
sem menos dois àqueles quais carregava,
se seguira distante, o vetusto, n' outra distinta mesa.


Nenhum comentário:

Postar um comentário