quinta-feira, 14 de junho de 2012

HERÓI



decrépita vila,
um demarcado
distrito,
em demasia se fala
no estado;
deste lar do conflito.

à negligência,
miserável,
indulgência
é inviável,
terra do assassínio,
suplício dos fracos, dos fortes fascínio.

e se contempla o nobre, o miserável,
de restos fazendo, às fazendas, um bem rentável,
fitam-se leprosos, pois, do garimpo, os forasteiros,
de velhas armas, a enfretar intrusos bandoleiros.

e em veredas de moradas, de madeiras carcomidas,
se arremedam as moças, aprumadas, pois de vestes tão sofridas,
de ingênuo flerte, e reza pura...
devotas rudes flores, que exalam vã doçura;

gracejam ao comércio, ilustres figuras,
desinibidas, desfilando envoltas, pedidos ouvindo,
duns pobres diabos, vivendo em agruras,
fitares; de alma famintos, das lavadeiras seguindo...

odiados são, os não devotos dum tal padre Cleonato,
orientais, prostitutas, ladrões e o armeiro,
infeliz recluso, aliás, dum dito dizer mui traiçoeiro,
que co' o Diabo, como contam, tem contrato;

sempre de preto, e cabelo escorrido,
beirando-lhe os ombros, semblante sofrido,
pistolas portando, de barba longa escura,
com outrem, demasiada conversa, jamais perdura;

estranheza causando, aos puritanos espanto,
ruas trespassa... mães, filhos cujos, de perto recoam,
ruidosos coturnos, em pétreos caminhos ressoam
o grito, do couro àquele brioso andante sem pranto;

saqueadores, assíduos retornavam,
invadindo armazéns, valores tornavam
à estrada, ao deserto, sem escrúpulo, ditos sem fé,
intentavam ainda ingênuos, alguns, atirar-lhes à pé,

homicídios às vistas, cotidiana paisagem,
pululavam crianças, ante toda esta imagem,
degolados delegados de levados legados,
lavados em sangue, eram os portões do quartel;

tiros se explodem,
pistoleiros revolvem,
dias após, tudo podendo
se sendo
forem; como um desses...
quais riem de pobres preces;

legionários abutres,
desértica aspereza consigo traziam,
mercenários funestos,
tornados à face do armado armeiro
armador de armadilhas e ardís,
cansado de tantos, prantos hostís;

tragando um cigarro, um escarro ao chão,
desprezo ao chefe, vindouro esquadrão,
retumbando infernais compassos, em cavalgada,
trespassando morros, de explosivos, à emboscada;

- bastardos malditos! - seguidos disparos,
sobre sí, decaem, moribundos dispersos,
incessante chacina, tamborila o gatilho nervoso,
provindo do armeiro, enrubescido calmo impetuoso...

- insetos... - os mata, sem dó, de uma vez,
sinfonia dum escuro maldito pó, mata mais dez,
gritos, blasfêmias, estouros, alardes...
contempla a morte, dispondo dissonantes acordes;

investidas certeiras, lacaios, são poucos
agora, embora vigore a voz em tons roucos,
dum lobo velho, saguinário ferido,
tornado a seu alvo, concerto enfurecido;

de madeira o celeiro, caixas de pólvora,
sombrio recanto, ruída uma espora,
cercado, e sagrando, o armeiro ordena,
sozinhas fecham-se as portas, quando este acena;

intentam luz ver, derrubá-la, impossível,
as pragas finais, no abafado escuro...
um rubro ponto de luz, cheiro de fumo,
espavoridos imploram à virgem... segundos finais...

negrume e combustão, fumaça, oração...
recém saído, o povo reúne-se a contemplar,
aquele que era santo, e dispôs a vida sacrificar,
chegado é o prefeito, em plena proclamação;

e viram-se então, as moças, todas aprumadas,
mimosos lenços a enxugar ternas grosseiras faces,
senhores do gado, de coroas mui bem ajeitadas,
alaranjados cravos tão bem dispostos ardentes...

como o coração, destes, recém, chegados garimpeiros,
a saudar tão lúgubre sacrário, do "herói",
sumidos fregueses, arrependidos caloteiros,
contadas antigas historias, de amizade jamais vista...

eis que às brumas, dos destroços se desvela,
uma silhueta sinistra, e das chamas remanescente,
caminhava o armeiro, sem sequer um acidente,
não podendo ser dele provinda, tal estranha cautela;

e a profanar suas honrarias crédulas hipócritas,
bradara ser, certamente um vadio satânico,
ao prefeito escarrando-lhe em tão flácida insuportável cara,
caminhando, e difamando várias virgens com as quais já se deitara...





Não muito a dizer sobre esse poema, simplesmente eu consegui dizer tudo aquilo que eu quis nele, isso por si só, é o ápice do que pode querer um escritor ou um poeta... :)



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