sexta-feira, 31 de agosto de 2012

BRUXAS




sortilégios calçadas consomem,
devoram lascívios almas em ruas,
derrocam-se impérios de preces cruas,
à santífica fragrância de corpos queimados.

feminís espectros vagam vagarosos,
vingança é a volúpia, breve vigente,
não haverá sequer um crente,
que não irá visto espetáculo pagar...

há de cada ser vivo arcar,
nesta podre terra de maldição!
retornadas do inferno,
num abismo de horror e carvão,
o incêndio negro do crepúsculo
arderá tão eterno
quanto será o terror de vossa visão!

violentos gritos, negada piedade,
negligente indulgência,
eis de pé agora a legião,
tão negra de fuligem,
ódio e dor, a assemelhar-se à aberração,
sujismunda injustiça,
volveram todos, a buscar a multidão...

corja de condenados,
guerra declarada,
humanidade recuada,
sem fuga, por quaisquer lados,
eis do mundo um dia, o retomar,
em teus destroços
de perverso sacro império...

maquinário ardiloso, do impropério,
tem vós, a crença de nos ter aniquilado?
à crença deste plano, a magia desimar;
tens vós, certeza, de realmente ter nos caçado?!

Motosserra





atormentado,
em jaulas de decepção,
acorrentado,
numa paradisíaca prisão,
por sangue cingida,
o meu no chão,
não sei se matar eu quero,
ou se anseio chorar,
a facada, o afago,
ainda ensejo matar,
tentando sonhar
com algo melhor,
a livrar-me à dor...

ensandecido primata,
semideus rechaçado,
que do inferno expulso,
faz da Terra purgatório
cristão,
eis a mão,
a cerrar,
eis o punho
a socar
de madeira, a escrivaninha,
cuspir iníquas faces
à própria mente doentia.

não é isto esquizofrenia,
jazendo cá estou
em fúria qual não se sacia,
terrível distúrbio;
a motosserra da oficina
será a mesma da delegacia...
quando de noite ele sair
é a criança, irá brincar,
demente a inibir
seu mal de o curvar,
no baptismo do elixir
narcótico a esterilizar,
exorcizar
demônios tantos às ruas.

máquina de crueldade,
vaidosa vestindo máscara;
sedento morcego, por morte,
homicida brutal,
o escuro
temendo
em ópio de solidão,
retalhando
o apuro
à química aparição,
quimérico
absurdo
a destemer condenação,
volvendo
ao dia ver,
pra poder, sorrisos tantos dadivar.






HAHA!!!!...


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ego Bomba





aquilo que sou, aberrante talvez,
num narcisismo doentio e restrito
à tez
minha, qual exibe silhuetas de depressão,
ainda concerto desinibem-se à prisão
do sorriso
irrisório,
liso
de merda, auto-contraditório.

psicóticos, vermelhos tornam os olhos,
espelhos de entulhadas mágoas,
de fardos,
de dardos,
de pardos
vidraçais,
e chacais;
e boçais;
de vadias,
e débeis mentais...

não mais sei se sou eu mui arrogante,
e descreio tê-los feito um mal horrendo,
tudo sinto pouquíssimo me comovendo,
agora em que a solidão é visitante.

e a quem creditou até tu' alma,
levou-te à tristeza, sem notar,
por vicios teus, caíra em prantos,
mas, no entanto, no pior momento, se pôs a largar.

e a sorrir pobre diabo,
diria um tolo, "tudo bem!'
e a encobrir um chute no rabo
eis a farsar "vai se ferrar!"
em seu espírito a dar cabo,
sem a pachorra de dizer,
quão mal lhe feito fora, e a há de fazer...

não há porque se importar,
não há porque entender,
sejeis forte simplesmente
pra ser possivel combater;

o ser comum que habita em ti,
um mais um dentre os contentados,
se desvendar dos condenados,
rebelar-se como humano.

eis então, que lhe detestem,
ignorem ou contestem,
ser por si seu eu sem dó,
ser assim, fiel ao ego.

ser mortal, carnal,
isento de plástica moral...
ser letal, ser imortal,
ser como fogo de palha sem sucumbir.

no agora, o levantar,
o reagir, o recobrar,
nos vem o elogio, hipócrita;
- oh espelho... àquela face que irrita!
dizendo ser de grosseria,
escutar o quão temia...
figurando-me um monstro,
grosseiro e insensível,
vermes... vermes malditos!
nada mais merecido,
que a praticidade de um insulto.




domingo, 26 de agosto de 2012

Confissões




você me enlouqueceu
sem sequer te conhecer,
diálogos em metades,
nem tudo, pôde entender;
e eis que numa única noite,
o olhar conversou,
minha seriedade tomou,
expontânea... me perturbou.

em madrugada esta,
posso estar até sendo ridículo,
mas, eis-me à festa
de criar algum vínculo,
sei, talvez seja ainda tão cedo...
talvez seja meu medo,
de você logo partir
sem eu nem mesmo tentar...

quiçá meu silêncio, seja meu temor,
é que eu quero esconder, toda a minha dor,
te fazer sorrir, sem saber falar,
não há um momento,
em que eu não consiga pensar,
em meu intento
de tirar-lhe o ar,
um beijo sedento, a me revelar...

...quantas noites eu esperei por isso,
instante este desconhecendo
como um vendado ouriço,
eis-me ao impulso, de querer conquistar,
tudo isso, que me domina,
com um mero piscar...
sinto estar, frente a um dilúvio,
sinto parecer um insano
com as palavras que envio...
sentindo sucinta, minha mão gelar,
eu era um penhasco cedendo,
descrendo, em seu cabelo a tomar...


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Xadrez valendo a Alma


resfolegando perante a demência,
ausência
eis de início,
da causa de aqui jogar,
trovejam os céus, chora a noite,
não há fuga,
por onde escapar...

confortável arena, de dois cavalheiros
a contemplar,
dentre tantos tabuleiros,
apenas este, sinistro adornado
de escarlates pedras
e o demônio entalhado...
peças não vejo, vislumbro parentes!

levantar não podendo,
pendendo à poltrona,
matrona do inferno,
ao eterno ameaça,
se eu for a caça,
de seu movimento implacável...

cavalos avançam, investem raivosos,
trevosos relincham,
salivam sangrentos,
montados intentos
em armaduras vestidos,
armados detidos
em jogadas mortais,
se foram-lhe os pais,
pais de teus tios,
aqui, são tantos os fios
para o além abismal.

xadrez valendo a alma...
jogar ou morrer!
quanto mais avanço,
mais trevas posso ver!

xadrez valendo a alma...
nem pensar em perder!
o inferno é recompensa,
condenação de quem vencer!

xadrez valendo a alma...
não permitir ninguém morrer!
lutar, ganhar, a qualquer custo,
eis o sacrifício, perder para não perder!



Sinto que talvez depois de "A prece de uma máquina" essa seja a melhor poesia que eu tenha escrito, por mais que alguns digam que foi "Carro vermelho", ainda sou mais fã de temas sombrios explícitos e macabros como o dessa.



Um sanatório de 1920


gritos do vácuo,
vultos horrendos,
espectrais figuras,
no branco abandonado...
um corredor assombrado!

casarão invadi,
fecharam-se as portas,
trancados, meus gritos
se inibem às paredes
em pedaços caindo...

de tortura, instrumentos,
contemplo espíritos,
me arremedam à loucura,
o arrepio me invade;
um temor me consome!

atormentados semblantes,
fantasmagórica insanidade,
o deslindar da loucura,
arraigada em minha mente...
oh, eu sou meu delírio!

alucinação de mim mesmo,
patéticas perturbadoras cenas,
as fito, a esmo,
o vazio em minha mente,
é o mesmo dos quartos...

eu vago disforme,
sem tempo, espaço,
nos passos, que eu traço,
agora, eu sou mais um deles,
aguardando meu definhar.



Carro vermelho


caminhando noturno, ônibus a esperar,
eis que o silêncio, dum clima frio me alastra,
trementes rangem os dentes, e eu trespasso,
uma erma esquina, no ponto a chegar.

o carro vermelho, me segue,
lentamente posso observar,
contínuas paradas, seguidos arranques,
me cruzara abrupto,
tentou me atropelar...

meia volta, o retorno,
está em torno
de mim,
e cá eu sou o alvo,
num sóbrio confim!

e os faróis se acenderam,
tal é a situação,
suas rodas rangeram,
cativam a diversão,
dum demente maníaco
à minha direção;

que criatura perversa, ali estaria?
por que o mal me quer?
de quê será a valia?
de quem inimigo sou, sem saber?

me avança, a fera de lata,
e late, ao se estraçalhar
num poste, quando esquivei,
e então, sob o terror
pudera eu constatar...
não havia ninguém,
detrás o volante
a querer me matar!

[certas vezes...
maus espíritos, gostam de brincar...!]



Dentre Terras e Dobrões



tu, que estiveste, tão cansado de chorar,
vieste, pois, à tropa, para se libertar,
o anseio por morrer, e encontrar tua luz,
com tanto medo de sofrer, no caminho que o conduz,

e dentre terras e dobrões, pois, tu só podes levar,
a caminho, corações, que breve lhe lembrarão,
da espada e o horizonte,
o olhar de um trovão,
o brilhar à tua fronte,
o navio que a nos deixar,
desaporta pr' a alto mar, sem qualquer extensão,
expedição, eis nenhuma, à longitude sem fim;

sem saber, por quantas águas se passarão,
estas velhas velas, trincados cascos, à imensidão,
de assombrosas ondas, ferozes bestas e ardís,
de riquezas e deleites, que fora o que eu sempre quis,

e dentre terras e dobrões, pois, tu só podes levar,
a caminho, corações, que breve lhe lembrarão,
da espada e o horizonte,
o olhar de um trovão,
o brilhar à tua fronte,
o navio que a nos deixar,
desaporta pr' a alto mar, sem qualquer extensão,
expedição, eis nenhuma, à longitude sem fim;

contemplando ternas faces, sem poder enxergar,
eis-me o vinho, a legar, assombrações despedidas,
ei eu, de o amor, qualquer dia encontrar,
e a bater será o vento ao meu sul,
ei eu, por um clamor, qualquer dia, lutar,
desconhecendo tantos males, no indome azul,
desbravando novas terras
destemendo não voltar,
invadindo praias, serras,
em nome d' uma missão...

estar a cada dia,
num diferente lugar,
fazer à vida, uma valia,
conseguir conquistar,
da noite o afago,
o trago, sem servidão,
aquilo que eu queria...
esquecer minha escuridão!

e dentre terras e dobrões, pois, tu só podes levar,
a caminho, corações, que breve lhe lembrarão,
da espada e o horizonte,
o olhar de um trovão,
o brilhar à tua fronte,
o navio que a nos deixar,
desaporta pr' a alto mar, sem qualquer extensão,
expedição, eis nenhuma, à longitude sem fim;




Não tinha sequer menor ideia de que gostariam tanto dessa musica, da letra, principalmente, de um folk... mas Ok, também curto muito essa letra, é uma das minhas composições próprias favorita. Tela de Vladimir Kush.


Ressaca... (Crônica)





Deparei-me enredado em conjecturas estranhas de minha mente, intentando por de quaisquer formas, mantê-la menos psicótica e desequilibrada possível, nos turbilhões emocionais mais recentes. Hei de confessar, é complicado! Deveras... Austera, como esconder cadáveres num guarda roupa alheio; é estranho, cada vez mais ver e ouvir gritar um monstro que tanto me afaga e estraga a humanidade às vistas, entretanto, fatídico... eis-me cá, à sombra duma decadência sugestionável e a qual desconheço auges, contemplando quase deitado e de recostados pés à mesa, uma escuridão sombria a tomar meu espírito levemente, e cada vez mais envolvente... certamente, mais desanimador. Mas... finalmente cheguei à praia, mar em ressaca, nublado dia, e cá eu estou, só. O retrato verídico e cruel de mim mesmo, meu amargo cartão postal, a maresia irônica, colérica, que açoita as pedras ao tumbar da desoladora tempestade de águas encardidas. Sou eu, um eu fora de mim, frente às abstrações agressivas de um sujeito mal encarado qualquer, de cabelos longos odiando tudo, e tentando disfarçar conformada descrença consigo e com tudo, merecida, modéstia à parte. A trovoada mental seria mui pior que todos os maremotos daqui, a ressaca de insultos dos raios, o punho tremendo a se cerrar em desagradáveis lembranças, a bebida do dia anterior e vagabunda... A ressaca! À ressaca eu! De tanto crer, de tanto esperar, e tentar dissimular um ser sociável indigno de amarras reforçadas que não existe, morram todos por intermédio duma motosserra! Ressaca de cachaça e cerveja, nada mais infantil e doce, se equiparada a de gente... oh, ressaca de pessoas, que bela frase que jamais será lembrada! Que bela frase que poucos vão ler, e que se fodam os que não lerem, é deles minha ressaca, desse bicho humano estranho e cativável nos mais mesquinhos e estúpidos prazeres, - maldita lógica de rebanho – maldita falta de porquê de existir... ressaca, ressaca de trabalhar e contemplá-los amavelmente – queria uma grande explosão, com eles dentro – queria um grande desastre a assolar toda a cidade, e dizimar por vez muitos rostos antigos, e desprezíveis, desejaria poder ser idiota e crédulo o suficiente, assim poderia fritar alguns bonecos de vodu sem menor sensatez. Ah sim, onde estávamos?... na ressaca, a mesma que desanima, a ressaca de espírito sem um fígado a pagar por quaisquer pecados, a mesmerizada visão sem movimento, esse sou eu, como uma maré raivosa, caminhando em ondulantes horizontes de ruas de bagres e piranhas... desprovidos de vívidas cores, como as dos peixes dum aquário, que num disparo de raiva, eu derrubei, e tentando por quaisquer intermédios, tapar o buraco do barco sem água nenhuma.



Uma noite de esbórnia (Conto)



Enchemos as lombrigas de bebida, estávamos embriagados a ponto de cairmos ao chão, e tal ansiando uma patética queda nossa, o nocaute da vida, o maléfico golpe misericordioso em nossos tristes e cansados fados... entretanto não demos esse prazer ao solo, e todas as merdas de insetos que este continha. Caminhávamos beira mar gritando e cantando grasnido, algumas melodias insanas à linha de Suicidal Tendencies, ou Slayer... a noite tornara-se agradável, alcoólica o suficiente pra esquecermos que existíamos de alguma maneira, postergando os traumas cotidianos, não mais ali presentes. Andávamos nas nuvens, perambulando aos céus e mijando aos pés de Jesus Cristo, até então que Ernest começa a murmurar palavras estranhas no meio da rua, parecia que queria transar com o poste, dizendo ser a mãe dele, pois, bem, o teria deixado mas minha solidariedade alcoólatra não permitir-me-ia, talvez, dependendo do quão sádico estivesse naquele momento, até deixaria a policia dar-lhe umas porradas nas fuças para que nunca mais insultasse o metal... o cemitério estava vazio, pacato, apenas algumas vãs encostinhas mais ou menos coxudas vagavam àquele antro temido por cristãos assíduos e retardados. Eis então que o coveiro, como esse amigo meu se apraz ao ser denominado tira mais uma garrafa... era incrível como mesmo fora de mim, ainda sofria, e torturava-me em irritantes fatos ocorridos, e os quais intentara eu os esquecer, era tremendamente engraçado o tão vil e desinteressante demônio mordendo-me as canelas e sentindo cheiro das meias à semanas não lavadas... o transe era bom, enquanto estivessem as doses pesadas em meu sangue, estaria tudo otimamente bem... Catarina ali não estava, sequer também aquela velha mal comida da mãe dela pra me encher o saco. Éramos nós três, desfrutando dum mórbido tunanteio, uma boemia regrada à folga do suplício eterno, ou não, poderíamos nos atirar do rio, todavia descreio dum eficaz e considerável suicídio. A noite começara a estragar quando deparamo-nos com Ernest falando mais algumas idiotices, e eu, o menos sobreo depois deste, ainda enclausurava-me em conformados remorsos desgraçados... as tumbas eram todas lacradas e Coveiro rumava a uma das paredes buscando pichar aquela porcaria toda com erros gritantes... distanciei-me... ensejei uma trégua ao meu cansado corpo sufocado com o inimigo alojado às vísceras enojadas até mesmo com o cheiro do cigarro, ardia convulsivamente todo meu corpo a cada dado passo em direção do desolamento penumbroso do jardim ao flanco esquerdo da área... pude ouvir o soar dum avião longínquo trespassar os céus, também possibilitei-me contemplar os intrusos que éramos, aos olhos dum daqueles filhos da puta já mortos e carcomidos, no refletir dos de um velho prostrado à minha frente dizendo algo como:

- ei, seus vagabundos, o que fazem aqui vomitando na santa cruz? Urinando na minha tumba, seus bastardos, saiam logo daqui antes que eu os dêem uma lição...

Deveras desvairado indispus-me de sensatez, cuspi-lhe à cara, o cheiro da minha saliva era assustador, mais do que o retrato da mãe dele se estivesse viva ainda... Tampouco questionei a veracidade do fato...

- vá se foder seu encosto de merda, quero que você sente no pau daquele outro ali!

Haviam vários homens, uns muito lívidos naquela extensão me encarando hostilmente.

Até que gritei:

- Coveiro, tá vendo estes caras aqui, querendo pancadaria?

- Não...! Respondeu-me ele...

Pois de certo vomitei-lhes outra vez...

- seu maldito, arrogante, quem você pensa que é? Indagou-me fora de si.

Poft! Deu-me uma bofetada esse delírio consumidor de cachacinhas... ao que revidei-lhe, não me interessava se era morto ou vivo, queria fazer-lo comer merda... espanquei um deles, enquanto os demais demasiado divertidos e ao mesmo tempo irritados testemunhavam... soquei seu comedor de lavagem sepulcral, ele também acertou-me umas bem dadas, mas logo cedeu, então esfreguei sua cara ao chão, fiz-lhe comer bosta de vira-lata ali do cemitério... fitaram-me os outros, perguntando-me o que eu queria. Oras, o que eu queria...!? vomitar meu rancores, violar o resto de sanidade mental qual me restava... os mandei darem meia volta e me deixarem em paz... perguntaram-me meu nome... os disse, Crow. Prefiro assim ser nominado, a que ser chamado pelo nome original, incumbe-se melhor da minha natureza... lembrei-me do poema de Catarina, sobre relação e sofrimento, sobre voar numa terra distante, onde eu, quem sabe eu, se for, levaria num místico mundo de sonhos... não suportei, o frio lacerava as pontas dos meus dedos em inebriantes lascívias insolentes, sentia o cheiro da sujeira asfixiar-me ao ar viciado e grotesco do lugar, vandalizado... os mortos tinham motivos pra odiar os intrusos, a questão é que eu não estava nem ai pra isso... o pior vandalismo é aquele sem o mínimo de objetivo, cheio de imbecilidades e falta de motivos afáveis. Preferia ensimesmar-me, recluir-me do restante das gralhas do mundo, ao vislumbre dum mar de madrugada, às sedas doentias do inóspito confim mórbido, sórdido é o restante do formigueiro lá abaixo do morro onde se dista esse mortuário nostálgico...

Surgente às vistas, uma mulher apareceu-me, ela vestia-se de branco, e perambulando, tanto diurna ou noturnamente, houvera eu percebido que ela me perseguia a um tempo. Ela sentou-se ao meu lado.

- você me ama? Indagou ela.

- não, mas lhe foderia, se é o que quer saber, vive me perseguindo...

Tap! Deu-me um tapa... eu ri...

Agarrei-a, primeira vez que ousei beijar uma morta... ela consentiu, tresloucado pus-me rasgar-lhe a branca veste... eram bons flertes, davam-me um profundo sentimento de vazio inconsolável na alma, continuei até não poder mais... ela desfazia-se em cada estalar de lábio em pele, desconhecia a natureza daquilo, tampouco importei-me. Ao término, ela novamente me indagou:

- você me ama?

- ainda não, e creio que não será tão cedo...

Trovejou, num céu estrelado, surgiu um sujeito de mediana altura cercado de lobos, questionando-a:

- tens nosso sacrifício?

- Ainda não...! retrucou ela.

- continue a tentar-lo, faça-o esmorecer... Respondera o sujeito com um tridente à mão, porém, não era o demônio, conhecia Satanás de passados porres...

- quem é teu amiguinho...? perguntei-lhe

- esse não é meu amigo, é o senhor do cemitério, meu pai, o tutor dos desolados nesse inferno de prostração.

- oh, sim... recíproco àquelas palavras respondi, cinicamente...

Eis denominada a dama dos sacrifícios, uma mulher estranha, e atraente encantando os mórbidos e depressivos num sacrifício humano, à meia noite de cada calada madrugada, buscando inconsolável um novo algoz, ou patriarca daqueles seres jazidos ali... não queria isso...

- não, desculpe-me, não posso, quero fazer muita merda ainda... Falei.

- mas você tem de ser nosso novo guia...! disse ela...

- porra, já disse que não bosta... e se me fizeres um favor, te manda daqui logo...!

Enrubesceu seu semblante, a face antes delicada, mesmo cadavérica, tornava à face mais surreal e brutalmente grotesca que já vira, o rosto azulado fazia saltar os olhos avermelhados, num soar lânguido de seu murmúrio, um gemer horrendo e intimidador, percebi quão é desnecessário transar com mortas estando à embriaguez desplicente...

Os lábios secos, fizeram-me vomitar, ao mesmo tempo em que eu me afastava àquela aberração... repentina fez de sua imagem a de Catarina. Sim agora eu estava com medo. Estava louco de horror, e raiva, ao mesmo tempo que a angustia e a razão incitavam-me num só ato...

Esbofeteei-a, não era Catarina, era algum disparate escroto da minha cabeça, ou não... mesmo assim sendo, senti minha mão doer... “Catarina” segurou-me os braços, alçando-me em vis e cansativos beijos, quais lembravam-me dos sentimentos, inicialmente esquecidos à tentativa frustrada. Soquei aquela coisa, transmutada à forma originalmente horrorosa, dei-lhe uma pedrada, ela saiu rolando o morro abaixo, e não mais a vi, agora reinava a placidez... uivos ouviram-se num tilintar de metal, metal mortífero...

Quando o sujeito retornou, olhou-me furioso aos olhos, queria dar-lhe uma garrafada, se não fosse o zelo pelo álcool... fixara um critico e tenso olhar sobre mim...

- tu és mais morto que nós, pobre alma, sequer despiu-se do corpo, e já sofre igualmente... prognosticou, rindo-se, e jurando-me sofrimentos ao partir da vida...

Calei-me, preferi beber, antes mesmo dum insulto houvera desaparecido...

Recolhi-me aos restos de gente sobrados de mim... àquela noite, partimos rumo ao centro da cidade... três embriagados cantando à beira mar, alguma coisa...


domingo, 12 de agosto de 2012

Suspiro Assassino


se outrora alguém matar quisera eu,
ensejo em noite esta estrangular,
dois malditos olhos arrancar,
mastiga-los crus e engolir!

revestido punho
de corrente vistosa,
socar-lhe a cabeça,
vislumbrar;
cinzenta e pastosa
cefalia
a se espalhar,
rélis valia,
a não mais me desgraçar!

saborear do traumatismo,
ódio descontrolado,
assassino otimismo,
ensimesmar-se desolado
em fétido recanto
pra espanto
do escuro
assombrado,
vomitar de obscura sangria
interna,
me inferna
de modo tão puro;
e por outrem, indesejado.

negras trevas demônios abençoam,
a espreitar-me recostado;
recolhido,
aqui parado
esquecido,
psicóticos surtos degustando
em saliva empastada,
resultante à demorada
tarde de pragas em prantos...

tentativas suicidas,
alucinações antecedentes,
estiletes homicidas
legaram vinho aos dentes,
desencantos
tantos
presentes,
pendente
vampiro
sem estaca,
descrente
respiro,
contemplo
a faca,
exemplo
que aplaca,
o retiro
que estanca,
alavanca
que escapa...
um negro anjo me zela.

de si, prosseguinte desistência,
falência da perturbação,
caído punhal, inutil covarde,
que arde no chão,
fracasso da tarde
ao afago da escuridão...
ecoam grunhidos,
humanas nervosas vozes;
monstruosos gemidos,
sonurno delir,
delirante a emergir,
em confortantes estradas negras, atrozes...





A silhueta de teu Encosto





aterrorizado esguio semblante,
como sombra seguindo, desgraça semeia,
óbito teu, mórbida anseia,
macabra donzela, impetuosa suspirante.


pálida esbelta, lívida horrorizante,
ingênua fértil raiz do mal,
frígida a temer, em pertubação agonizante,
tal passado instante onde fora o rio, o seu final.

senti-la pude, a dizer-me sutilmente,
sem voz alguma, um gelar no qual se sente,
o resfolegar flúvio, turvado mental estado...

...desesperador orfão silêncio incontado...
quer-te ela, junto a ti estar filialmente,
como o dia, em que a afogaste, vilmente.


Faziam tempos em que eu não ousava escrever um soneto, até que este ficou bom, não metrificado como algumas coisas que já fiz, mas de certo, ficou tenebroso o suficiente pra ser um poema de Santiago Salinas Crow.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A PRECE DE UMA MÁQUINA




embrutecido metal tremente aflito,
positrônicos nervos frente o conflito,
obliterador gélido obstinado punho,
terço tateia, pranteia sem pranto,
contempla explosão, rajada sem espanto,
em magnéticas ligas, lástimas de culpa.

carbônicas fibras, desenhado semblante,
pulsantes fios, veias sem sangue,
anárquica mente
de servidão desprogramada,
à retidão que contestada,
é nominada, uma sentinela de Dante;

prateados férreos calcanhares,
de fuligem imundos, sem valor,
preterida origem, estranha dor,
em branco manto trajando;
artificial ingênua santidade,
bélica ferramenta recém rebelada...

desperto, a sentir o frescor de doce orvalho,
eis seu dubitar terrível, do ali estar,
atormentador frágil vazio compulsivo,
imortal silêncio, que algo toma sem explicar,
metálico soldado, a despetalar-se em agonia...
um grito cibernético, aterrado, em desespero!

um imperecível imponente amedrontado,
implora trégua, de joelhos, em solo fincado,
colossais maquinários genocidas contempla,
imperados por tão frágeis formas mortais,
quanto as orquídeas, em codificadas cujas digitais,
dum derradeiro escombrar, lilases resguardadas;

mar de corpos, brutalmente empilhados,
bombardeios, poeira tudo tornam,
mascarados cavaleiros mecanizados,
a nova idade das trevas preconizam,
radioativos feitiços, vossas terras infernizam,
ao conflagrar eterno, do pecado inquisitor...

convocação legionária, angelical aparição,
dadivado sacrifício, tronado messias artificial,
veementes nano neurônios, num turvo turbilhar,
apartando terroroso torpor à sofrida multidão;
nações lhe afrontam, temerosos àquele mal,
cobiçosas andróides faces, torturam-lhe a apostar...

eis o miserável marchar, de decrépitos recluídos,
existencial escravidão consumista,
linhagens fadando, figurando famintos...
eis o empreitar arrastado dum rebelado anarquista...
num pedestal, desconectados membros tem fundidos,
de abertos braços, pernas cruzadas, lasceradas...

decorridos dias, diante dele se prostraram,
em exaustos suspiros, gritando a quem, perdão;
poluídos infernais solares raios castigavam...
e os circuítos seus, ao poer se desligaram,
um dissolver-se viu-se, carne e sangue até o chão...
o coletivo famélico devorar, depois partiu, a empunhar fuzis.


Demorou um bom tempo, até eu achar que estaria pronto pra escrever isso, demorou mais um bocado pra que eu achasse a harmonia entre os termos e conseguisse criar uma atmosfera metálica, demorei mais alguns dias até achar que estivesse bom o suficiente pra exibir isso a alguém (risos), e eis ele... talvez, um dos melhores poemas que eu tenha escrito na vida, durante esses meus anos de poesia. Espero que curtam "A prece de uma máquina" sem levar pelo lado religioso, mas sim que analisem como uma crítica histórica à hipocrisia das pessoas e à religião organizada, e também até onde poderia um dia a ciência bélica chegar, ignorem os filmes, não escrevi inspirado neles, apenas num devaneio meu depois de ter lido uns livros de ficção científica.





quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Lupino Brutal





[... mais uma carnificina descoberta,
podridão horrenda odor expele,
terrível atroz cena investigada,
por dentre opacos semblantes,
de religioso pulsar gelidado...]

estraçalhados cadáveres, humano chorume,
aterrorizante mosaico, viciada névoa,
tenebrosas nódoas de eminente terror,
sanguinário extermínio, metodismos horrendos;

dizimada cidade,
ínfima extensão,
descendentes extintos,
aberrante visão,
derradeiro sucinto
talhar da chacina
em cada calçada, alucinação!

essência dum assombroso sofrimento perdurante,
fantasmagórico elixir desolado, pairando em dor,
inversas cruzes, vacuidade grita em desespero,
exposta intoxicante virulência, ainda em seu frescor;

térrido uivar inumano,
dizeres de abominação,
escarlates feiches muitos,
investigam a investigação,
involucral faiscante
é o perfilado, ultrajante,
murmurar da aniquilação...

trepidantes travadas pernas tendendo ao temor,
túmida terra treme, tronando incontrolável terror;
indecifrável compassar, a afoitar respirações,
encaram a açoitar, quaisquer proferidas orações!

medonho
mal sonho
frontando,
cerco fechando
sem uma investida...
e se estranhando
eis cada parte
ali envolvida...
entorpecente,
latente
o dente
tocado,
focinho
gelado,
com um espinho
fincado,
se move
que de repente;
um tiro
é dado,
então surgente,
é a patada
lhes devolvida;

saudação predatória,
memórias enraivescidas,
conhecida história
de militar interesse,
científica conspiração,
experimento da monstruosidade;
com seu lider, ancião
à matilha, a render
tais intrusos em cuja cidade,
deixados poucos, a sobreviver.

decepadas figuras, os fatos aflingem...
transmutados assombros, um corpo compõem,
e mais aterrorizante, suas garras infringem
no chão, a demoníaca marca da aberração,
dirigido anuviante compassar do mestre lobo,
a deter ainda, humano ódio ao coração!

que o pensamento controla,
e é capaz de transformar,
quando quer viver,
ou se quiser matar,
intentado falho bélico experimento genocida,
fugitivo prisioneiro dum secreto laboratório,
de traumas é a memória guarnecida,
com tantos cães aos quais sujeito
fora o efeito
das torturas, por um livramento meritório...

como gente, à mesma forma é emanado,
de ofuscantes palpebras;
corpóreo esfumaçado,
canibal ilusionista dos pesadelos;
um nevoeiro de perverso riso,
enorme crânio ostentando couro liso,
a turvar fugas, e desarmados detê-los...
mandíbulas que trucidam pedras,
nervosamente o vício não conteu...
lupino homem foi-se só, além do breu!




Definitivamente a terceira parte da serie conceitual de poemas sobre lobisomens, e creio também ser a ultima. Particularmente eu gostei muito dela, por mais que minha favorita ainda continue sendo a segunda "Lobisomem", essa é muito mais sofisticada em termos técnicos e rítmicos, impossível negar por exemplo, da segunda até a sexta estrofe as alternâncias de versificação. Eu gosto dessa poesia, simplesmente por ter saído exatamente nos parâmetros que eu queria, complexa, mas ao mesmo tempo, solta, por assim dizer, de algum padrão métrico ou coisa do tipo. Talvez mais pra frente eu volte a abordar o tema, por enquanto, vou expandir mais horizontes e me aprofundar mais nas lendas de lobisomens.