segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uma noite de esbórnia (Conto)



Enchemos as lombrigas de bebida, estávamos embriagados a ponto de cairmos ao chão, e tal ansiando uma patética queda nossa, o nocaute da vida, o maléfico golpe misericordioso em nossos tristes e cansados fados... entretanto não demos esse prazer ao solo, e todas as merdas de insetos que este continha. Caminhávamos beira mar gritando e cantando grasnido, algumas melodias insanas à linha de Suicidal Tendencies, ou Slayer... a noite tornara-se agradável, alcoólica o suficiente pra esquecermos que existíamos de alguma maneira, postergando os traumas cotidianos, não mais ali presentes. Andávamos nas nuvens, perambulando aos céus e mijando aos pés de Jesus Cristo, até então que Ernest começa a murmurar palavras estranhas no meio da rua, parecia que queria transar com o poste, dizendo ser a mãe dele, pois, bem, o teria deixado mas minha solidariedade alcoólatra não permitir-me-ia, talvez, dependendo do quão sádico estivesse naquele momento, até deixaria a policia dar-lhe umas porradas nas fuças para que nunca mais insultasse o metal... o cemitério estava vazio, pacato, apenas algumas vãs encostinhas mais ou menos coxudas vagavam àquele antro temido por cristãos assíduos e retardados. Eis então que o coveiro, como esse amigo meu se apraz ao ser denominado tira mais uma garrafa... era incrível como mesmo fora de mim, ainda sofria, e torturava-me em irritantes fatos ocorridos, e os quais intentara eu os esquecer, era tremendamente engraçado o tão vil e desinteressante demônio mordendo-me as canelas e sentindo cheiro das meias à semanas não lavadas... o transe era bom, enquanto estivessem as doses pesadas em meu sangue, estaria tudo otimamente bem... Catarina ali não estava, sequer também aquela velha mal comida da mãe dela pra me encher o saco. Éramos nós três, desfrutando dum mórbido tunanteio, uma boemia regrada à folga do suplício eterno, ou não, poderíamos nos atirar do rio, todavia descreio dum eficaz e considerável suicídio. A noite começara a estragar quando deparamo-nos com Ernest falando mais algumas idiotices, e eu, o menos sobreo depois deste, ainda enclausurava-me em conformados remorsos desgraçados... as tumbas eram todas lacradas e Coveiro rumava a uma das paredes buscando pichar aquela porcaria toda com erros gritantes... distanciei-me... ensejei uma trégua ao meu cansado corpo sufocado com o inimigo alojado às vísceras enojadas até mesmo com o cheiro do cigarro, ardia convulsivamente todo meu corpo a cada dado passo em direção do desolamento penumbroso do jardim ao flanco esquerdo da área... pude ouvir o soar dum avião longínquo trespassar os céus, também possibilitei-me contemplar os intrusos que éramos, aos olhos dum daqueles filhos da puta já mortos e carcomidos, no refletir dos de um velho prostrado à minha frente dizendo algo como:

- ei, seus vagabundos, o que fazem aqui vomitando na santa cruz? Urinando na minha tumba, seus bastardos, saiam logo daqui antes que eu os dêem uma lição...

Deveras desvairado indispus-me de sensatez, cuspi-lhe à cara, o cheiro da minha saliva era assustador, mais do que o retrato da mãe dele se estivesse viva ainda... Tampouco questionei a veracidade do fato...

- vá se foder seu encosto de merda, quero que você sente no pau daquele outro ali!

Haviam vários homens, uns muito lívidos naquela extensão me encarando hostilmente.

Até que gritei:

- Coveiro, tá vendo estes caras aqui, querendo pancadaria?

- Não...! Respondeu-me ele...

Pois de certo vomitei-lhes outra vez...

- seu maldito, arrogante, quem você pensa que é? Indagou-me fora de si.

Poft! Deu-me uma bofetada esse delírio consumidor de cachacinhas... ao que revidei-lhe, não me interessava se era morto ou vivo, queria fazer-lo comer merda... espanquei um deles, enquanto os demais demasiado divertidos e ao mesmo tempo irritados testemunhavam... soquei seu comedor de lavagem sepulcral, ele também acertou-me umas bem dadas, mas logo cedeu, então esfreguei sua cara ao chão, fiz-lhe comer bosta de vira-lata ali do cemitério... fitaram-me os outros, perguntando-me o que eu queria. Oras, o que eu queria...!? vomitar meu rancores, violar o resto de sanidade mental qual me restava... os mandei darem meia volta e me deixarem em paz... perguntaram-me meu nome... os disse, Crow. Prefiro assim ser nominado, a que ser chamado pelo nome original, incumbe-se melhor da minha natureza... lembrei-me do poema de Catarina, sobre relação e sofrimento, sobre voar numa terra distante, onde eu, quem sabe eu, se for, levaria num místico mundo de sonhos... não suportei, o frio lacerava as pontas dos meus dedos em inebriantes lascívias insolentes, sentia o cheiro da sujeira asfixiar-me ao ar viciado e grotesco do lugar, vandalizado... os mortos tinham motivos pra odiar os intrusos, a questão é que eu não estava nem ai pra isso... o pior vandalismo é aquele sem o mínimo de objetivo, cheio de imbecilidades e falta de motivos afáveis. Preferia ensimesmar-me, recluir-me do restante das gralhas do mundo, ao vislumbre dum mar de madrugada, às sedas doentias do inóspito confim mórbido, sórdido é o restante do formigueiro lá abaixo do morro onde se dista esse mortuário nostálgico...

Surgente às vistas, uma mulher apareceu-me, ela vestia-se de branco, e perambulando, tanto diurna ou noturnamente, houvera eu percebido que ela me perseguia a um tempo. Ela sentou-se ao meu lado.

- você me ama? Indagou ela.

- não, mas lhe foderia, se é o que quer saber, vive me perseguindo...

Tap! Deu-me um tapa... eu ri...

Agarrei-a, primeira vez que ousei beijar uma morta... ela consentiu, tresloucado pus-me rasgar-lhe a branca veste... eram bons flertes, davam-me um profundo sentimento de vazio inconsolável na alma, continuei até não poder mais... ela desfazia-se em cada estalar de lábio em pele, desconhecia a natureza daquilo, tampouco importei-me. Ao término, ela novamente me indagou:

- você me ama?

- ainda não, e creio que não será tão cedo...

Trovejou, num céu estrelado, surgiu um sujeito de mediana altura cercado de lobos, questionando-a:

- tens nosso sacrifício?

- Ainda não...! retrucou ela.

- continue a tentar-lo, faça-o esmorecer... Respondera o sujeito com um tridente à mão, porém, não era o demônio, conhecia Satanás de passados porres...

- quem é teu amiguinho...? perguntei-lhe

- esse não é meu amigo, é o senhor do cemitério, meu pai, o tutor dos desolados nesse inferno de prostração.

- oh, sim... recíproco àquelas palavras respondi, cinicamente...

Eis denominada a dama dos sacrifícios, uma mulher estranha, e atraente encantando os mórbidos e depressivos num sacrifício humano, à meia noite de cada calada madrugada, buscando inconsolável um novo algoz, ou patriarca daqueles seres jazidos ali... não queria isso...

- não, desculpe-me, não posso, quero fazer muita merda ainda... Falei.

- mas você tem de ser nosso novo guia...! disse ela...

- porra, já disse que não bosta... e se me fizeres um favor, te manda daqui logo...!

Enrubesceu seu semblante, a face antes delicada, mesmo cadavérica, tornava à face mais surreal e brutalmente grotesca que já vira, o rosto azulado fazia saltar os olhos avermelhados, num soar lânguido de seu murmúrio, um gemer horrendo e intimidador, percebi quão é desnecessário transar com mortas estando à embriaguez desplicente...

Os lábios secos, fizeram-me vomitar, ao mesmo tempo em que eu me afastava àquela aberração... repentina fez de sua imagem a de Catarina. Sim agora eu estava com medo. Estava louco de horror, e raiva, ao mesmo tempo que a angustia e a razão incitavam-me num só ato...

Esbofeteei-a, não era Catarina, era algum disparate escroto da minha cabeça, ou não... mesmo assim sendo, senti minha mão doer... “Catarina” segurou-me os braços, alçando-me em vis e cansativos beijos, quais lembravam-me dos sentimentos, inicialmente esquecidos à tentativa frustrada. Soquei aquela coisa, transmutada à forma originalmente horrorosa, dei-lhe uma pedrada, ela saiu rolando o morro abaixo, e não mais a vi, agora reinava a placidez... uivos ouviram-se num tilintar de metal, metal mortífero...

Quando o sujeito retornou, olhou-me furioso aos olhos, queria dar-lhe uma garrafada, se não fosse o zelo pelo álcool... fixara um critico e tenso olhar sobre mim...

- tu és mais morto que nós, pobre alma, sequer despiu-se do corpo, e já sofre igualmente... prognosticou, rindo-se, e jurando-me sofrimentos ao partir da vida...

Calei-me, preferi beber, antes mesmo dum insulto houvera desaparecido...

Recolhi-me aos restos de gente sobrados de mim... àquela noite, partimos rumo ao centro da cidade... três embriagados cantando à beira mar, alguma coisa...


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