quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Já que você não se importa...




Tamborilantes pingos d’ agua uma sonata compunham, tão marginal no úmido cenário de grotescas sombras do caminho à casa, eu via-me desolado em frustrantes tentativas de me compreender. Não mais me entendia; encontrava-me, sequer sentia-me a par da situação em totalidade, quiçá fossem minha culpa, os afastamentos recentes, dos amigos, dos meus contatos artísticos, dos colegas de boemia, das mulheres... tendia-me a crer em conspirações espirituais, mas logo, fez-me o acaso a volver com a vergonha na cara, afinal, tinham mais o que fazer os espíritos, do que injuriarem-me de tal forma. Era comigo a coisa, profunda, algo além do que um analista poderia ajudar, algo subjetivo demais, para confiar a alguém visando apenas normalidade mental, da qual, nunca fui adepto. Sentei-me num banco, a noite ventava solitária e das quais sob meu lado direito, pousavam incontáveis flores de cerejeira dum flanco mais acima, algumas percebi, agarrarem-se em meus cabelos longos e encaracolados. A cerveja se ia esquentando à medida em que consumia-se um cigarro sem tragos. Todos ignorados ao ensimesmar-se de minha perturbação, todos lívidos, quase sem cor, diante do pensamento fixado na grama crescida selvagem. Algo pra mim me importava! Sim, algo parecia ter importância agora, ao ver de outrem, eu não conseguira mais desvincular o poeta da pessoa, o poeta era a pessoa, e a pessoa era eu. Não me importa o que diriam meus companheiros,  cujo “foda-se” é um visível e constante adorno em suas falas, eu não sentia-me bem ali, o suficiente para dizer foda-se a alguém, a única coisa que eu desejava, era alguém que me escutasse, sem enrubescer-se perante os diálogos, obviamente, difíceis de entendimento. Elucubrações mais, meditações incessantes atadas ao tempo, o dever próximo a ser cumprido. Não havia muito tempo! Porém, algo sempre importou, toda prosa, requer um leitor, todo versejo de um maníaco bom o bastante que o interprete. Eu precisava de algo, em minha solitude, todos precisam, e quem dirá daquele, cujo “foda-se” é chave de todas as portas, estará mentindo, é uma fechadura burlada. Todos se importam com algo, até os que não se importam, até os que vestem-se gritantemente às ruas, precisam de olhares perplexos, caso contrário, se não os tivessem, se atreveriam sem algo a dizer? Sim, devo ser um hipócrita por pensar assim agindo como o faço, talvez, devesse engolir que me importo com o sentimento de algumas pessoas, segundo outras tantas quais mandei rondarem a toca do Tinhoso, à procura de um consolo. Mas sim, tendo a me importar, tendo a acreditar e a dar minha vida por essas, mesmo sendo de pouca valia, mais morto encontro-me, de pé, que vivente a cerrar um punho enquanto digo isso. Nada desfez-se em mim, do que sempre fui por considerar esta conclusão, a questão é impressionar, não fugir, é devastar e arrasar com tudo e criar algo novo, alienar-se em drogas ou bebidas, sem ser por diversão, é suicídio estupido. Dizer não se preocupar com nada, sem ter algo deveras relevante, em mente, agir desastrosamente sob as outras pessoas, aludindo ser isso um estilo de vida com o “foda-se” estampado à feição infame, isso é ser um filho da puta, um egoísta sem nada pra dizer, e assim sendo, melhor calado, ou então, suicide-se logo, assim consome menos oxigênio de pessoas interessantes e uteis. Isso em realidade, é o que eu chamo de aparência vazia, de “poser”... Oh amigos tantos, falsos quais afastei-me, sois umas pragas mandadas distantes, sois um veneno extirpado no escarro da revolta sem raiva, a pior delas, aliás, a conclusão!






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