quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O ceifador da Meia Noite







































noturnas blasfêmias,
ansiavamos pecaminosos,
num afastado cemitério
duma cidade minimal,
era a década das drogas
da revolta, rebelia,
conosco isso trouxemos,
dentro minha surrada mochila,
embriagados de perversão,
de injurias e ceticismo,
destememos à invasão,
cenário dum mórbido misticismo...

da capela, à luz distados,
trespassar por covas recém cobertas,
em ruas de necrópole perdidos,
ofereceu-nos a lua, um sorrir maligno,
a zombaria dos atormentados,
pena de morte sem fim!
o vindouro vulto monstruoso
a um amigo tolo vinha,
e também se dirigia a mim!

encapuzado por minutos,
prateada foice portava prostrado,
inquietante indagado inebriava,
inquestionável, iníquo, ocultado
era cujo semblante
em negra treva jurado,
em fugir fizemos, à frenesia,
eu corria, do talho diabólico
no túmulo, qual estava eu sentado!

em negro cavalo, repentino,
cuja expressão, ardia infernal,
se abatera um desnorteio
quando se embrenhou no matagal,
além à trilha, em tudo à volta,
escuridão impiamente deslucida,
traiçoeira, é víl escolta!

e num descuido, prendeu-se em relvas...
se foi de infância, um camarada,
macabra cena, testemunhei em catatonia,
era ele agora, de outro mundo,
mais um coitado de cabeça cortada!

cheira a morte, motriz agonizante,
e a orquestrais demônios fui deparado,
os perspassei, no horror, como morfina,
vida apostada, madrugada de sadismo,
percebia, me perseguia o cavaleiro disparado!

possuído por puro pavor,
uma pedra lancei-lhe, ele caiu,
senti, novamente, os pés meus,
esfumaçante, tal sumiu.
fugitivo eu caminhava, sem saber por onde ir...

aparição malevolente,
inclemente, não há perdão,
sacrifício iminente
será o meu, na escuridão!
e a deus que tanto rezo
sinal sequer vejo nenhum,
carne minha muito prezo,
exibem cicatrizes colossais
espinhos, galhos, matagais,
cortes, rasgos, enfim,
é a mim
o destino incerto
comida de inseto
ser, em tenebrosos umbrais!

ceifador demoníaco,
ministro à escuridão,
misterioso é seu capuz,
foice da aniquilação,
em cingido preto, reduz,
qualquer diabo humano
em criança assustada,

será seu sangue o vinho,
o corpo teu, tal pão,
tua alma irá, levada,
á inefável imensidão,
condenada, tão falada,
o vilarejo sepulcral,
eterno feudo de escravidão!

esverdeada aurora, uma fonte no caminho,
poço de assombrações, d' outro mundo portal,
iníquo gélido sopro, sem vento,
deslindado em encontro a palmos poucos,
é o cadavérico semblante mortal!
rangem tumbas, lisas lápides,
esguia esquiva, ataque de um animal,
outra, e mais outra, empurrei-lhe e ele foi,
sua foice sobre mim caiu,
de meu pé, três dedos levou,
a água benzi, corri, alvorava,
eu seguia, o lugar me apavorava,
mesmo de lá saído, quando clareou...

não é de mim, esta história, uma mentira,
intento infame, de terror lhes criar...
diante do sagrado fogo, posso eu mostrar,
e apostar, que nenhum debochado rir irá.

[tragou seu cigarro, então, tirou ele seu sapato,
e diante das crianças, faltavam-lhe três dedos]



Fucking hell, esse poema eu levei dois dias pra compor, ficou diabólico, por mais que eu tenha me inspirado num conto meu pra fazê-lo, mais que sequer terminei ainda, pelo menos a versão em verso já está ai. A tela é de Alain Mathiot, muito boa. 



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