quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A Cara de um Pirata
































parede amarela, rodapé amadeirado,
antigos retratos, bustos pendurados,
marujos alertas, meio mal encarados,
de soslaio; um pirata, de cachimbo de lado,
afastado, num rir cínico, enrubescido,
rosto marcado, astuto, vetusto sagaz sofrido,
pequenos olhos, barba suja,
ouro se vê, nos dentes, riquezas quaisquer sobrepuja.

e num ditar de febo corrompido,
calado se exibe, ali apenas encarando,
de insônia infindáveis noites, a zelo do desconhecido,
pesadas ásperas mãos, de labuta ainda a lembrar,
sujas pesadas cordas, ensebadas de antigas, levantando
à embarcação, os pulmões, pra que se possa respirar,
como outros mais, fiéis bastardos filhos do mar,
em fuga seguros, vícios buscando, no atingir;

do afligir
de imensas
fundas águas,
demarcadas suas
onde é mais livre
que entre ruas,
nuas
se caminhar,
dadivadas
miseráveis,
percorridas,
madrugadas
detestáveis,
de apenas
ser,
um pobre mais
não poder,
raparigas
ver
sem depravar,
ter
o que beber
quanto quiser,
se até quiser desmaiar,
ouro às vadias,
para quão desfrutar...

...e enfermos esquecer
às portas celestiais,
de capelas corroídas
por maresia,
paisagens doídas,
num condoer,
fujam, peguem as nais!...

rezam lendas, àquele vil busto, de excêntrico, até mal,
que em madrugada de extrema euforia da tripulação,
puseram-se furtivos, a render,
um vigilante, novato dormente, ali deixado, aborrecido,
enquanto jazia impotente, num bordel, o capitão,
e outros mais embriagados, distantes, sem perceber,
levaram o navio, os deixaram a esmo no alvorecido
instante, em que após mandados foram à casa prisional.

protelava presença, ali contente despercebido,
figurando uma parede, semblante cansado,
de histórias protagonista, não pra crianças contadas,
o mestre da garrafa vazia, proezas provadas,
desvendadas mulheres, Atlântico explorado,
envelhecer, somente fora do que há se arrependido,
interceptado ouro, usurpados valores,
dentre tantas perdas e dores; enterrados, perdidos...

Blecaute












































gritos...
sangrentos surtos;
indignas previsões de algum infeliz vidente;
agora no escuro, como demais mortais imploram...

fatídico;
enobrecer de fios de treva,
antes frágeis sob a luz que feita ausente,
umbral desvela,
e toda gente
apenas sente, displicente, postes estouram,
transformadores carbonizam,
cheiro de sede,
de sangue, paira o atentado,
cruel se desmede,
num mau pressentir negro... que preconiza;

coletiva histeria,
esganiçados berros que em becos ecoam,
em cada canto, parte; e destoam,
breve outrora de vago cotidiano,
o saber, de que tudo foi planejado,
blecaute armado,
bando esfaimado,
promíscuo bramir de falsas integras farsantes,
pensavam em salvar-se, em queda infernal,
em seus braços cedem, mensageiros do mal...
e diante à máscara da distração
emergem faces de caótica destruição...

defloram o silêncio, em temor, tão pacato,
que antes de raiva, convertido em temor,
assaltos explodem, violento impacto,
explodem em bancos, bombas, arranques de motor,
ônibus incendeiam-se,
muitos tentam se resguardar, no fundo se esconder,
escolhem outros rezar,
e em verdade muito que fazer
em momento não resta,
o inferno se empresta
da terra pra arder,
e em chamas, cidade eu vejo,
desespero escuto,
do pesadelo almejo
poder
acordar...
inumeráveis mortes se ouviram dizer,
maioria escutei confirmar...
e cada vez mais eu vejo acender
luzes de horror em todo lugar...

gritos...
surtos;
num blecaute de horror,
mais e mais, silenciavam-se conflitos,
apaziguou-se tudo em torpor,
resguardei-me armado, em restrito
reduto, dispondo de algum gerador;






Motosserra











estraçalhadora lâmina giratória,
ferramenta de bom uso
desprovida de glória
de madeira roer,
serragem espalhar,
sangue só soube saber
ver, em mãos de quem decidiu exterminar;

insignificantes dez minutos,
antes que pudesse a policia chegar,
suficientes pra divertir
um demônio eternamente no inferno a queimar,
contemple traços cujos de fúria
nada que perto lhe ouse chegar,
alguns tiros, nada mais,
é o que se espera, para que possa parar...

e veja, aquele sujeito não se importava,
lhe atiraram pedras, e em seguida revidou,
conhecido tranquilo, sua fama levava,
porquês desconhecem, do que o levou
tudo mudar, de morte lavava,
cuja figura asquerosa carnificenta,
num terror abominável que aumenta
o desesperar submerso à visão do terror;
barrá-lo, se intenta,
reage pior,
não vinha a guarda,
alguém interviu, um carro o atropelou...

morto aparente,
vermelha nódoa no asfalto se acentua,
à volta, juntava-se a gente,
realidade mortal, nua e crua...
multidão analisava...

de espasmo o momento,
explosão de brutal violência,
fingido de morto,
levantou-se em reação,
último suspiro,
máquina à mão,
grito de veemência,
um partir sem clemência,
desfigurar de mais alguns,
degolar de fúria,
incondicional ódio febril,
se ouviram distantes tiros,
finalmente ele caiu...

e era só mais uma estranha aparição,
que do mundo, bote sofreu,
inquisidor perseguido,
jamais se saberá o quão pensou,
hediondez tamanha que formulou,
desde quando caos cresceu,
numa mente,
como outra qualquer às ruas possivelmente,
até quando não mais nada em perda ter, se perceber.




Evolução












































deslindada ao petrificar de longas eras,
um grito que emana desesperado,
enterrado, seco, inanimado,
o despertar dum horizonte d' outras feras,
o vislumbre do futuro inevitável,
minha querida, depois de tanto, a encontrei.

observe você mesma, o destino,
milhares de anos, depois, teu desvendar,
tu deitada, e a livrei de mortalhas, para ver,
desenterrada, fitei-a, em seu grito de pavor,
e logo após, nos encobriram espíritos imemoriáveis...
contemple a ironia,
vida e morte;
presente, passado,
vigência, e extinção,
ainda o mesmo somos,
uma mesma expressão,
diante a derrota,
desarmados diante à evolução...

símios, primatas modernos,
Neandertais contemporâneos,
no exaltar do vislumbre do estranho,
ainda pergunto-me; o que é evolução?...
e apenas vejo, a cada mais,
uma máquina quimérica
nos converter em parte da aberração...

resta marchar, caminhar à linha,
após em duas pernas, o que virá?
é proibido voar, em terra de deuses,
contemplar suas nuvens,
é proibido dizer, contestar,
no que nos diz respeito à lógica,
é proibido livre ser, sem sofrer,
gritar de ódio, também decretaram,
é preciso comer, é preciso lutar,
é preciso sobreviver, se render, aceitar!

eu não quero rezar,
crer, me curvar,
nunca mais enquanto viver,
apenas são maiores, por eu estar no chão!
sangue-sugas oportunistas
no valsar trágico da evolução,
são apenas mortais,
nos condicionando ao inferno!

escravagistas morais,
feudais,
chacais,
vermes,
animais,
filhos da puta miseráveis regras ditando,
somos escravos de vossa moeda,
devotos de farsantes leis forjadas,
que em demasia de árduas, nos retrocede,
cada mais, em bestas pelo desespero tomadas,
somos vítimas da repressão,
pelo direito de poder sobreviver,
não temos voz, nem expressão
se isso não lhes conveniente for,
apenas adoecidos, em torpor,
aprendemos a rir satisfeitos, envoltos de horror,
gratos orgulhosos, diante causada dor,
manipulados, indiferentes,
migalhas nos subornam, para contra ninguém se opor...

escassez, verazmente evidente,
a cada ano a se passar,
vez e mais, é difícil se manter,
quem dirá, por ventura então se rebelar?!
se libertar
de tantos bastardos,
até o limite do insuportável,
chegará o momento de matar nossos líderes,
suas cabeças significarão liberdade!
chegará o momento de derrubar estes deuses,
e ensinar-lhes o que é humanidade!
chegará o momento de erradicar os crápulas,
e mostrar-lhes o que é real impunidade!
chegará o momento de reconstruir o mundo,
pelo caos, o dizer da mão cansada,
o açoitar vindo do escravo,
gritar de algoz de quem apenas soube apanhar!









Ratos no Convés








ratos no convés,
furtivos dançavam no madrugar da tripulação,
roíam a comida,
escassa, em meio ao sem-direção,
tão imenso, passava o tempo,
os ratos ainda roíam...

riem ratos reles restantes,
ruidando rançosos, roedores risonhos,
de restos de risos, em rente retrato,
roçam em remos, redes, ripas
refazem retalhos, em roupas rotas,
rotas refazem, recitam a rima
em rascunhos de retas recém reescritas...
e um rouco rugir ressoará no retorno,
do ranzinza responsável ao receber...

"riem ratos, de restos, de risos,
rompendo as rotas, rimados avisos,
recado roído, repicado recente,
o rumo é errado, o refaça decente!"







sábado, 2 de fevereiro de 2013

Triunfante Plainar De Um Dragão






























tremem em colossais estrondos
avassaladoras plataformas celestiais,
que sob simplórias vistas
quase inalcançáveis são,
embates fulguram,
conflagram, trituram,
seculares pilastras de eterna crença honrada,
onde sagrada é aquela terra defendida,
encantada,
guarnecida,
confiada
à escolhida
divina fera
de um brado
que aterra
o negro lado
montanhês
mais uma vez
no intento de conquistar;
riquezas, destruir, escravizar,
descobrir,
secretos feitiços,
universo aquele, tomar,
por completo
num eterno anoitecer
onde imperarão vis magos
sem compreensão do saber,
com cruéis afagos
todo o legado
conquistarão,
o desconjurar do tratado
de paz com outras dimensões...

mui acima, imprevisível
imaginado
embate impera,
violento incomensurável,
chovem chamas, à evidência;
brutalidade inefável,
caos, eis que vocifera,
em um céu de alada tormenta,
não apenas é, peleja mera,
eis o inconcebível,
e o memorável,
irreversível,
irremediável
glorioso épico digladiar de dracônicas ventas
em um trágico final, de augúrio inconcebível!

e sob rochas, rasantes,
predador e presa,
ligeiro, temeroso,
quão também temerário,
escamoso é corpo esguio,
de ágil mover, de mercenário,
nesse páreo
infringe inoculados venenos magistrais,
negra mágica que emprega,
de ilembrados imortais
segredos
sagrados,
dedos
sangrados,
sacrificados
medos
tornara
o mais jovial,
sua maior arma,
fervoroso guardião,
langue vitima,
também desarma
seu algoz, seu mal,
maligno, e ardiloso ancião...

reviravolta, em revolta, o revolver,
réptil reagir, o sublime mover,
visceral volvendo, visando morrer
se preciso, o sacrifício,
para que se possa vencer,
glória do ofício,
hermética ordem defender,
em plena, e desvalida queda mortal,
um mergulhar em si, mais que material,
deparar bestial, em subconsciente espírito,
emanar de escaldante escarlate flamejar de fúria
indizível,
espontâneo desperto,
o acordar,
de si, recobrar,
explosivo, frente a um golpe final...

vê-se veemente, o puro arder de rubra flama,
tão frio, que em seu pranto, a terra clama,
contra-ataque, um assassinar, com gosto vingança,
descomunal destruir, fervor que desconstrói,
despedaça, e deveras devoto, diabólico desesperado,
demarca inimiga jugular, venenosa queimando,
e a dois passos do chão, um safo desviar ao céu;

decola imperial, em veloz altitude,
contempla adversário seu, invasor, decaído,
em trevas o aprisionam, desvalido,
selado, impedido,
de mais algo qualquer, por ventura impetrar,
contra quem, a chave dos mundos, tem a guardar,
e perante ameaçador adversário, exalando horror,
a confia em sua alma, tão crente, assim rente, de benévolo fervor.

em baixo topo de morro, não distante,
pousado, de guardadas asas
quais, ainda memoram-lhe o errante;
que terras não há, para dormir,
tampouco um povo, a que se unir,
é seu destino, ser só, e inominado,
em quaisquer que sejam riscos, se entrepor,
outrem sujeitar, senão disfarçado,
como guerreiro, boêmio, poeta soturno,
procurando vícios, em tabernas, afastado.





O Ancião Da Espada Flamejante






























o ancião de flamejante espada vem em minha direção,
e seus rubros olhos, possuem a raiva de quatro séculos,
aprisionado, agora liberto, ele me guiará ao ouro,
num cavalo negro, de cascos de prata, abençoa meu destino,
e sob escadarias pétreas, augúrios faz, de minha batalha,
bárbaro vetusto, alforriado de seu próprio inferno,
fazes parte de mim, te vendi minha alma, para que lutes comigo...

dê-me a glória tua, em toda desgraça,
faz do abutre que me sonda, morta caça,
guardião colérico, de uma fortuna ensanguentada,
foi aberto, agora o selo, de vossa umbra desvendada,
fazes da fúria de tua montaria, minha vontade,
e seu semblante, o vigor de meu mirar,
abençoa-me co' o que os demais são desprovidos,

seja feita, a aparição, sombria e triunfante,
meu encarnar no escarnio que encara,
involucrais ardis, que com o inferno, parte possuem sem saber,
sempre quando inevitável, tiver eu de invocar-te, fulminante,
em um corrosivo arder que emerge em meu espírito,
numa ira sem conter, pulverizando mortalhas,
faz de tua figura, minha tormentosa, e simbólica máscara.

tu que vestes, relampejante armadura equiparável,
à imponência de um trovejar raivoso,
imponente espadachim, de um passado remoto, e horroroso,
vieste à luz, como um anjo, agora consagrado,
longa barba ostentas, na alvura de longo cabelo enfeitiçado,
caminhas sob a terra, num semear de empatia, num infindável
desejar de logro... por deter consigo, seu tesouro perdido.





Deverasmente a imagem não condiz muito com o visual do que é retratado no poema, foi o mais próximo que encontrei disso, e também um imagem bem legal, causa efeito e tem uma notável presença visual. Espero que gostem.