quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Balconista Italiano (Conto)
























Matematicamente, absorto em minhas álgebras abstratas... sairei eu, ileso deste infortúnio como um velho balconista de uma tabacaria dum filme de faroeste italiano. Pois o que vos conto amigos, não é mais do que uma história qualquer, e nada mais que um retrato escarrado da sordidez humana também em mim adjacente. Meus bons e velhos amigos, cavalheiros curiosamente entusiasmados, sob minha vista, que vês vós, senão um grande fanfarrão imbuindo-se de mais um alcoólico torpor, a satisfazer-me a gana de contar-lhes meus pecados? Não! Não aos padres será digna esta minha confissão, pois, certamente sou honesto demais a mim mesmo, para que pudesse eu arrepender-me de tal injúria com algum falso sugestionamento, sim o cometi de caso orquestrado nobres fieis da perversão, porém, sou eu devoto de minha amizade e nobreza fraternal, à qual, por desventura, pus-me a profanar como um animal sedento em meus vícios mais supérfluos. Não iludir-me-ei contudo. Quanto à minha culpa, que escutem estas, as meretrizes de bordel.
 Era ela tão bela, era ela tão envolvente, que meu espírito usurpava senhores, como a escuridão dum corredor alumiado em velas de procissão vertiginosa,  apenas consigo arrastando os olhares mais sombrios da cidadela das mágoas concretadas em séculos de ambição marítima. Como a candura de uma mãe viúva. Ou o dizer de um poeta que jamais provou de uma mulher... Como um feitiço sem escapatórias, cunhado no juramento de uma bigorna de um ferreiro diabólico. Ela era tão...
- Estranha! Aludiu alguém de uma das mesas;
- Sim! Afirmara Cleptoth, em seus trajes de mago andarilho.
 Algo de estranho, e mais do que pudera eu resistir. Era ela, uma mão adormecida, a selar um arco cuja mira, pois, de pronto, admirava o peito de um de meus companheiros mais saudosos. Eu era um temível e enojante crápula fiel à minha espécie, de sorriso amarelo narcisista, vislumbrando em minha poética pomposa um misto de modernidade, à televisão do bar.
Todos riram entretidos.
Pois o enfeitiçar-se aos encantos de uma rapariga, meu caros, obviamente não acarreta pena a infeliz algum, entretanto, - sua voz era de intenso timbre – o apunhalar de um fiel irmão de espírito... tendo por noção, as consequências de tal feito... Que dirá minha falecida consciência? Por tempos intentei resistir aos caprichos, do Diabo que aflingira meu corpo em labaredas pulsantes de ensejo e atração soberba. Era eu, pois certo, um de seus mais próximos, no qual, sentia-se confiante, aquele pobre, neste instante, em alguma sarjeta sem quaisquer malvadezas a valer-se de sua ingenuidade estupida de incrédulo no mundo.
E agora senhores? Que farei eu, diante o incognoscível mar de exaspero tormentoso? Que farei eu sem a candura amável dela, cujo nominar evocava a fragrância dos jasmins ensolarados duma terna manhã de primavera? Que farei eu, co’ a culpa, senhores?  – indagara ao público de maneira desafiadora. Que homem, carrega o fardo da mágoa de morte da devoção amistosa, como de tal modo fora, a lenda do Rei Arthur... como irei eu, cavalheiros, arrastar um grilhão de inimizade por dentre as décadas de “não-mais-ver”, dum “vir a ser”, de um “o-que-seria?”...

Indubitável, senhores, que de nobreza, meu espirito é encarecido, e eu vislumbrava em minha mente suas silhuetas, que a mim recriavam a cada momento de cuja presença, um fascínio desolador. Corriam-se os dias, as noites, transmutavam-se as luas numa ébria metamorfose. Num deleitar, que em pensamento, jamais seria vivido. Num anseio facínora e assassino! Na morte a me dadivar lascívias flores... Não de enterro. E eis que por clemência dos deuses, de Saturno, fui eu, um dos primeiros a quem foram confiadas suas feminis confissões, de que não mais o amava, por caso, de sua ingenuidade pueril. Entristeci-me pura e prontamente, repentino eu contemplava o gramado de um bosque pelo qual cultivávamos um similar encantamento. Mas nada mais seria bel prazer de um ser nefasto, como florescer extasiante do felicitar-se à desgraça alheia, à queda que lhe gera alguma esperança.
E sabeis, plateia, de que digo, ao presentar da imagem de um sórdido semblante recolhido em si! Risonho e perverso, como cascavel em doce orvalho. Passava-se o tempo, semanas fenecidas num palpitar de alheias mágoas que escutava eu pasmado, de ambos lados. Tomada minha posição, converti-me em algo além às alturas vastas desta muralha colossal, deste tal embargo de sutil aspecto incomodo. Era eu, um cigano em minhas maquiavélicas adivinhanças, não por própria vontade, medindo cada frase a despeito à situação, em prol de meu próprio interesse.
Sequer se viam mais. E cada delonga em que ali me situava, pus-me a conversar-lhe de todas as coisas, à qual me via inapto em ver-lhe alguma vil vadia envaidecida, como tampouco, uma mulher pela qual perpetraria algum sacrifício... Abordávamos, deveras, assuntos que passariam longe de quaisquer suspeitas de algum interesse que não a fala, outros, certamente, apenas amantes os teriam, os mais inocentes... os mais lascivos... os mais vorazes...
Palpitante fio de teia em lâmina de virgem navalha. Sois vós capazes de mensurar tamanha delicadeza e perigo extremo neste meu dizer? Assim era minha renuncia ao inevitável, circense em meio uma plateia vaiadora. Tendo por certo, um trágico final terrificante. Eu era uma caravana inteira de mercenários sedentos num deserto escaldante, dias após, incontidos, que em chegada, me descobri deparado, por um navio, que de piratas infestados, ansiavam por firme terra, finalmente...
Estava lá, eu, em seus dados braços, a ela, minha santa, minha meretriz, minha criança docilmente aconselhada, a cruz de meu martírio em uma mentira que ostentava a sangria da punhalada fatal! Final... Sentia ser isso! A escolha de algo digno, e o tentar do cativante, sem pender à humildade humana e insípida de não esperar alguma divina recompensa, não a teria. Ao fracasso! Pois sou, certamente incrédulo... quando sei não haver valia alguma em honrosos atos. A despeito, comecei a amá-la... Sim, ouvistes bem cavalheiros, comecei a amá-la! Intensamente, tal qual teme um crente ao demônio.
Uma pausa, acendera seu cigarro, a manga de sua roupa o atrapalhava para conseguir alcançar os bolsos internos, dera dois tragos e após isso prosseguira no seu discurso.
O veneno do amor facínora corria por cada infame veia às quais protelavam minha existência. Conflitei comigo mesmo, o teor deste mesmo ardor inconsolável, e nada mais podia eu fazer, que render-me, agora feito, à sua magnitude perversa e persuasiva. E quando definitiva e finalmente chegada era a hora de eu declarar-me, meus caros, acontecera o imprevisto, ela, sob audaciosa atenção nos meus gestos e minha fala, como também atenta ao assunto, se antecedera a mim, num momento podendo converter-se, em paraíso ou masmorra infernal... porém, levara-me ela então ao céu,  quando se declarou pra mim. Sim, meus caros! Ela me amava tão quão eu o tinha por ela. Éramos um, e meu tão rejeitado amigo, sem desconfiança qualquer sobre o que acontecia, nada mais tinha com isso, ele agora havia convertido-se em memória, uma triste e terna memória que pelo tempo esquecida, descansava em bons risos de nostalgia. Para ela, ao menos.
Sabeis quão asquerosamente cruel pode ser a moral de um homem?! Até o ponto de fazê-lo culpar-se daquilo que por justiça ele fez por merecer. Ela me disse, quais motivos levaram-na ao total desamor e desprezo por aquela figura de tão ingênua, insuportável. Nada tinha a despeito do que eu julgava ser de minha autoria. Em simples palavras... Não fui eu. 
O povo que o assistia se admirou com o desfecho do discurso, Cleptoth , “O mago” prosseguia a dinâmica cada vez mais cansado, e sem animo, algo o perturbava em sua narrativa...
E diante dele, que faria eu após tão sensual calorosa noite com sua ainda amada, não podia esta sequer encara-lo aos olhos, quem diria então, devolver-lhe a aliança de noivado com um discurso a ser dito convincentemente, cabia a mim, contar-lhe, enfrenta-lo por nosso recém iluminado amor nascido às sombras de minha ilusória culpa.
Era uma noite, uma vez tão desgraçada ao qual se dedicava ele ao ópio, às escondidas, como gatuno arruaceiro, estávamos sós, perante à situação, a punhalada, o sacrificar de uma amizade em prol do que sentíamos. Ainda não estava ele alucinado, e propício seria dizê-lo antes que o fizesse, talvez o faria repensar até mesmo, se deveria acender seu cachimbo.

- Tu, sabes meus amigo, que te tenho como irmão, mas sabes também, que irmãos erram...
- Que motivo te faz falar isso?
- Tendes ciência, de que não sou mais um mero amigo de tua noiva, como antes de conhece-la, quando tu me a apresentaste, e sabes, que como ser humano, tem ela uma mente incrível, encantadora, na qual estive perplexamente ligado, essas ultimas três semanas, tomando conhecimento de tudo que havia acontecido com ambos, tu e ela.
- Sim, eu creio que sei sim, mas por que me dizes isto?
- Ela, meu caro, sentiu-se desanimada com tua virtude, a incomoda, foi o que me disse ela, que apenas não mais o deseja como o desejava antes, digo isso, por ser teu amigo, não quero tomar-te o tempo com estes tipos de assunto, serei franco e direto, independente de nossa fraternidade... ela não o quer mais, pediu-me pra que lhe entregasse isto!
Cleptoth lhe entregara o anel de noivado...
- Como pôde ela me apunhalar de tal maneira?! Depois de tudo, de tal forma, e sem porquê... tão repentina...?!
- Há mais algo que preciso dizer-lhe...
- Pois diga...
- Sei que o que te direi, será o fim, mas jamais poderia omitir lhe isto por muito tempo, e estou decidido a fazer por merecer aquilo que sonhei...
- Diga logo...!
- Eu a amo! Amo como jamais desejaria não amar uma mulher, e a tenho, nos entregamos um ao outro, como mais que apenas amigos, em demasia, muito mais que irmãos... a desejava, por algum tempo, como mulher, e ela me desejou de igual, eu mesmo, não imaginava que seria isto possível...

Sinto haver uma lacuna, daquele dia, ao seguir dos demais, não sinto ter um coração, não senti-me digno de tê-la, no entretanto, não mais a tive de qualquer modo, aquele ser, permeado de candura e delicias d’ alma, jamais sequer existira, apenas era um anseio flutuante ao qual se fez dócil no momento que lhe conveio, eu nada mais era, que alguém iludido à sua lascívia vulgar e vaidosa, pois descobri, com o decorrer do tempo e a convivência breve que se corrompia e transmutava-se num quadro de tortura, que possuía a mesma virtude à qual ela tão prontamente odiava... As mesmas virtudes, do meu maior inimigo.
A plateia o aplaudira de pé, e simplesmente extasiado pela tão detalhada e sutil narrativa, acendera mais um cigarro e tomara ao balcão um copo de uísque, lembrando de tudo que dissera em alto e bom tom, como se gritasse o insuportável.




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