domingo, 15 de junho de 2014

Livro Amaldiçoado, Uma Bíblia Negra






























negra bíblia, pensava, manual dos mistérios, 
diário espiritual das indizíveis profundezas, 
mofado velho papel, escura capa atroz sedutora, 
me dito foi, se incerto estiver, de lê-la não termines, 
instante após, por ninharia a barganhado ter.

cético esperançoso, desbravador de inspirações, 
inexistiria arte qualquer sem um alicerce real, 
esmiuçando breves trechos enquanto andante 
em noturna avenida, traiçoeira em movimento, 
gela a espinha, de quem vendeu feição lembrar.

perverso intruso repentino pensar, assombroso, 
um visto possível acidente, de tom decepcionado 
surgira o suspiro, à natureza minha incomum, 
obscurecer-se por dentro, deparar louco, risonho, 
visão sutil se enturva, não sinto o corpo obedecer,

espasmos, retomada, me continha, se repetia... 
vezes inúmeras, intrigante, um respirar profundo, 
como se o corpo recusasse por si só fazer, 
atendo mais o trajeto; atrasado; em casa chegar, 
arrependido pelo exotismo por mim adquirido.

velho ônibus de olhares feios quais julgo hostis, 
prestes à chegada, apertado foi o parar por outrem, 
num instante esperei, por este quem Ninguém 
jamais manifesto, me feito tendo, estranha gentileza, 
e ao quarto meu, o deixei em minha escrivaninha.

sonolência abarcara-me, em vil delírio envolta,
turvo elucubrar recordando retratadas gravuras,
ouvidos meus chamados mentem, repentinos,
inconsciente despertar, de novo, racional repousar,
despreocupado mergulho abismal, cruel pesadelo...

expostos cadáveres, por cega multidão pisoteados, 
simplórias sombrias, entregues cabanas, o incêndio;
conflagrar de largos prantos, desesperados gritos,
ensanguentadas bolas de fogo em carne humana, 
exaspero insuportável, inaudível piedade imploravam,

charretes em galope esmagam moribundos caídos,
agarradas mulheres em corpóreas réstias amadas,
trovões trombeteiam a fúria dos espíritos negros,
dissemina um gélido ventar, semeia inflamado caos,
desgarram-se animais, convulsionam os tementes,

agridem-se veementes, com espetos perfuram uns,
terrível urge, faminto ecoar de gargalhadas diabólicas,
invade involucral a volúpia dos loucos tomados,
vetustas entidades permeiam os ares, sua vingança,
austero o julgamento, à ingratidão corrompidos...

gritos despertam submergir meu desta mental tortura,
escada abaixo atrito escuto, choros, caem coisas,
transtornada, família minha encontro apavorada,
questionar meu, de que se passa, e então o saber,
mesmo sonho haviam tido, sensação de queimadura.

findar de sortilégios, perante o fogo da velha lareira,
de fumaça explodir, mui estranha, cujo intimidar
por segundo mero, face vislumbrei mórbida aterradora,
destilava-me ódio, por tê-la ao meu pai denunciado,
encarava-me a fundo, como se prometesse sua volta.


Tela de Zdzislaw Beksinsk (1929-2005)

Um comentário:

  1. Interessante como me identifico com este poema, ainda mais ouvindo Epica - We Will Take You With Us.

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